29.9.09

Salsaparrilha


Smilax aspera L.

Quando em Julho vimos esta trepadeira, a folhagem pareceu-nos de uma Convolvulaceae. Não estava na época de floração, que, sabemos agora, vai de Agosto a Outubro, por isso esperámos por um reencontro que nos elucidasse. É raro, porque exige em geral meses de vigilância e uma disponibilidade que não temos, conseguirmos assistir a todas as etapas da vida anual de uma planta; mas é isso o que, neste caso feliz, as fotos, obtidas numa mesma tarde de Setembro, documentam.

Ao centro está um pé masculino com umbelas de 5-20 flores minúsculas de 6 estames proeminentes. À direita vê-se um pé feminino, perfumado, que no bosque se enroscava sedutoramente no anterior. Nesta imagem pode também notar as duas gavinhas que nascem na base de cada folha. À esquerda retrata-se um cacho de bagas, que serão pretas quando amadurecerem.

A Smilax aspera leva uma vida caprichosa, experimentando vários formatos para as folhas, mais ou menos sagitadas, de base cordiforme com um veio central - ou vários paralelos e em palma - e margens adornadas por minúsculos espinhos aduncos que ajudam na escalada, ou não. Os botânicos têm acompanhado esta volubilidade com igual aprumo: o género Smilax pertenceu à família Liliaceae mas foi recentemente alojado, com mais dois géneros, numa família à parte, Smilacaceae, pequena, com apenas 370 espécies de trepadeiras rizomatosas, 3 das quais da Europa mediterrânica.

A salsaparrilha gosta de bosques cerrados de regiões temperadas ou subtropicais. Os rizomas e as raízes são aromáticos e contêm ingredientes depurativos; a S. medica Schltdl & Cham. e a S. officinalis Kunth têm mesmo uso medicinal. Os frutos não são comestíveis, ao contrário do que asseveraram Dioscórides e Plínio; a planta apresenta um grau respeitável de toxicidade.

A palavra salsaparrilha deriva da castelhana zarzaparrilla. Esta compõe-se de zarza (em português sarça, isto é, silva), aludindo aos espinhos que lembram os das silvas (Rubus sp.), e parrilla, de parra (de uvas ou bagas). Teremos dito outrora sarçaparrilha, mas a erosão do uso levou-a ao som mais liso de salsa, e «o vocábulo azulou»*.

* Carlos Drummond de Andrade, As palavras que ninguém diz

2 comentários :

Maria da Luz Borges disse...

Na zona de Sintra, e quando eu era pequena, chamava-se salsa parrilha à erva de s.Roberto. Portanto quando vi o título do post fiquei feliz e pensei: "Finalmente uma planta de casa"
Ainda bem que não era. Aprendi mais umas coisitas e emocionei-me com o texto tão bem escrito e com a excelentes fotografias. Obrigado por estes momentos únicos que me vão proporcionando.
Luz

Maria Carvalho disse...

Bem lembrado, Luz. A erva-de- São-Roberto tem folhas parecidas com as da salsa, mas mais ásperas, daí o acrescento «parrilha».