27.7.07

Na paragem do 502


Bordos-prateados (Acer saccharinum) - rua Sá da Bandeira - Porto

As carreiras dos STCP eram, antes da última reorganização da rede, numeradas com dois algarismos. Agora são-no com três. Porquê? Será que a quantidade de linhas aumentou tanto - atingindo agora a ordem das centenas - que dois algarismos já não bastam? Quem assim conjecture pode ter umas luzes de aritmética, mas não é nada cosmopolita. O novo sistema de numeração, descrito como intuitivo por quem o inventou, teve como modelo inspirador o mesmo que é usado nos melhores hotéis das grandes capitais do mundo (e também nos piores das pequenas capitais): o primeiro ou primeiros algarismos indicam o número do andar, e os restantes o número do quarto nesse andar; para entendermos o sistema STCP, só temos de substituir «andar» por «concelho», e «quarto nesse andar» por «autocarro que serve esse concelho». Do mesmo modo que da existência do quarto 903 não podemos deduzir que no hotel haja novecentos quartos, também da existência do autocarro 903 não se segue que os STCP tenham novecentas linhas diferentes. De facto, têm até menos linhas do que na época em que dois algarismos davam conta do recado.

Seja ele intuitivo ou não, o que é certo é que pessoas como eu, educadas desde pequenas no sistema antigo, têm dificuldades em assimilar o novo. É pior que o (felizmente) enguiçado acordo ortográfico luso-brasileiro: obriga-nos não só a mudar a ortografia, mas o próprio alfabeto; há uma parte da cidade que deixamos de saber ler. Devagarinho, lá vamos aprendendo a decifrar uma ou outra palavra, mas nunca recuperamos a antiga fluidez de leitura. Um dos autocarros novos que já aprendi é o 502, que parte da rua do Bolhão, faz na rua Sá da Bandeira a sua primeira paragem, e segue até Matosinhos. (Corolário: todos os autocarros na casa dos 500 vão para Matosinhos; agora só preciso de localizar mais algum deles para tirar proveito dessa minha arguta observação.)

O recado que tenho a dar é simples: a paragem do 502 na rua Sá da Bandeira é do melhor que há no seu género; fico até com pena quando o autocarro não se atrasa. É às árvores da rua que devo este milagre que me converte a espera, coisa em geral desagradável e enervante, em período de aprazível contemplação. Estes áceres (Acer saccharinum, ou bordos-prateados) que sombreiam o troço superior da rua são uma excelente herança (no meio de outras muito más) da Porto 2001. São esbeltos e têm crescido de forma notável, dando à rua um carácter aconchegante que ela nunca teve antes. Desfrutemo-los agora, enquanto não vier a poda estragá-los.

P.S. O Carlos Romão mostrou há dias estas mesmas árvores (em foto muito melhor do que as minhas) na Cidade Surpreendente.

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