24.12.12

Mais pulgas




Pulicaria dysenterica (L.) Bernh.

Segunda conversa sobre pulgas em duas semanas. O nosso gato, se se interessasse por aquilo que escrevemos, não deixaria de emitir um miado de preocupação com a obsessão pulguenta que parece ter-nos infectado. Gato sem culpa formada a cumprir prisão perpétua num apartamento do terceiro andar, amenizada por frequentes incursões nas partes comuns do prédio, ele é de todo alheio a este assunto. O trato muito ocasional que mantém com pulgas deve-se à inadvertência dos seus carcereiros, que as apanham na rua de gatos de outra casta.

Lá teríamos que o elucidar, com a paciência possível, sobre o carácter teórico-didáctico-displicente dos textos aqui publicados. O que nos move é o gosto por colectar historietas acerca de plantas, sem intenção de dar uso prático aos vagos conhecimentos assim acumulados. Da próxima vez que o gato for assediado por pulgas, não vamos tentar afugentá-las queimando na lareira folhas secas da Pulicaria dysenterica, mas sim fazer como sempre fizemos, aspergindo-lhe o pescoço com um repelente de eficácia garantida. A somar ao resultado duvidoso do uso da planta, mesmo chamando-se ela fleabane em inglês, é desmotivador não sabermos onde a encontrar quando dela precisamos. Frequentadora de lugares húmidos, é muito esporádica em Portugal, embora possa ocorrer em toda a faixa ocidental a norte do Sado.

Outra virtude apregoada pelo nome científico da Pulicaria dysenterica é a de ela servir para tratamento da disenteria, graças às qualidades adstringentes do suco extraído do caule. Porém, numa emergência, a farmácia fica mais à mão e está mais bem abastecida de medicamentos do que a improvável bouça onde subsistiria a planta. Mesmo na mítica aldeia o uso de remédios caseiros depende de uma familiaridade com o mundo vegetal que pouquíssimos possuem.

Resta falar do aspecto exterior desta asterácea a quem, segundo alguns, o povo chamaria erva-das-disenterias. Planta rizomatosa persistente, tem caules lanosos, muito ramificados, de não mais que 60 cm de altura, e folhas sésseis, rugosas, semelhantes às de algumas espécies de Cistus (em especial às do C. psilosepalus). Floresce por um breve período no Verão com muitos capítulos vistosos de 2 a 3 cm de diâmetro. As fotos foram tiradas em Vagos no início de Setembro.

5 comentários :

Justine disse...

Uma delícia, passar por aqui! Ar limpo e cheiroso, textos irónicos e didácticos,ambiente descontraído e com gatos dentro! Uma delícia, repito:)))

Anónimo disse...

Very fine plant, indeed!!

Anónimo disse...

Paulo,

Tive a sorte de encontrar esta interessante asterácea no verão passado, não muito longe de Viana do Castelo, em dois sítios não muito distantes. Num dos locais havia poucos indivíduos, mas no outro era, digamos, abundante. Até agora só a encontrei nessa zona, mas pensei que não era tão esporádica.

É curioso que até ao tacto é pouco suave, o que atesta a sua coerência.

João Lourenço

bea disse...

Boas Festas ao gato e aos donos.

como o anónimo, não tinha ideia de que fosse tão esporádica. Ou conheço umas primas em numero bastante.

Paulo Araújo disse...

Obrigado, Bea, e Boas Festas também para si.

-----------------------

João:

Escrevi que a planta é esporádica porque até hoje eu e a Maria só a vimos num lugar, e no Flora-On os registos são muito poucos. Claro que podemos tê-la visto noutras ocasiões sem prestarmos atenção, mas ela é suficientemente distintiva, pelo menos em flor, para isso ser pouco provável. Além do mais, tratando-se de planta rizomatosa, terá tendência para surgir em grande número nos lugares onde ocorre.

(Muito apropriado o teu comentário sobre o tacto. É um bom hábito, que às vezes me esqueço de praticar, esse de analisar uma planta com todos os sentidos disponíveis.)