4.11.04

Lembrar Garrett

A cidade tem andado esquecida. Desculpar-se-á com o emaranhado de afazeres diários que lhe enevoam a sensibilidade, com os canónicos dissabores do Outono chuvoso, com as arrelias neste torrão de lágrimas. Mas não há perdão para o desinteresse oficial por efeméride de tanto relevo: Almeida Garrett faleceu há 150 anos e seria de todo pertinente que a cultura portuense sublinhasse a data com evocação especial da obra do escritor. Como registo dessa efeméride, só a carta de Manuel António Pina (in Visão, Agosto de 2004) ao poder camarário:

«Exmo. Sr. Presidente da Câmara do Porto:

Almeida Garrett morreu há 150 anos. Talvez V. Excia. não esteja, assim de repente, a ver de quem se trata, mas se tiver a maçada de olhar pela janela do gabinete há-de reparar numa estátua colocada na praça fronteira aos Paços do Concelho: Almeida Garrett é esse, como confirmará mandando alguém lá abaixo.
Estranhará V. Excia. que o venham tirar das fadigosas congeminações camarárias para lhe dizer que o tal Almeida Qualquer Coisa morreu há 150 anos, e perguntará justificadamente: "Que tenho eu com isso?" Na verdade, V. Excia. não tem nada com isso. Nem a circunstância de o homem ter nascido no Porto, cidade (às vezes chamada "cidade de Garrett") a cujos destinos V. Excia. preside, é decerto motivo bastante, já que todos os dias nasce gente no Porto. (...)
Ora para que não se comente que o "leal, paciente e bom povo" do Porto (...) não honra os seus filhos, talvez V. Excia. queira, tendo tempo, considerar uma qualquer evocação da efeméride antes do termo do ano, mesmo que a preço de alguns foguetes a menos na próxima sessão de fogo-de-artifício. (...)
Isto, apesar de já ter sido dito, (...) que "a maior honra que podem fazer ao eminente escriptor é ensinarem a gente do Porto a ler, e depois mais tarde darem-lhe para admirar os escriptos do seu patrício". Mas, se toda a gente do Porto lesse Garrett, quem sobraria para o fogo-de-artifício?»


Se, lendo Garrett, o homenageamos, saboreemos pois um excerto de Viagens na minha terra (1846):

«Este é que é o pinhal da Azambuja?
Não pode ser.
Esta, aquela antiga selva, temida quase religiosamente como um bosque druídico! (...) ...Oh! que ainda me faltava perder mais esta ilusão...


Por quantas maldições e infernos adornam o estilo dum verdadeiro escritor romântico, digam-me, digam-me: onde estão os arvoredos fechados, os sítios medonhos desta espessura? Pois isto é possível, pois o pinhal da Azambuja é isto?... (...) Uns poucos de pinheiros raros e enfezados através dos quais se estão vendo as vinhas e olivedos circunstantes!... É o desapontamento mais chapado e solene que nunca tive na minha vida - uma verdadeira logração em boa e antiga frase portuguesa.

E contudo aqui é que devia ser, aqui é que é, geográfica e topograficamente falando, o bem conhecido e confrontado sítio do pinhal da Azambuja... Passaria por aqui algum Orfeu que, pelos mágicos poderes da sua lira, levasse atrás de si as árvores deste antigo e clássico Ménalo dos salteadores lusitanos? Eu não sou muito difícil em admitir prodígios quando não sei explicar os fenómenos por outro modo. O pinhal da Azambuja mudou-se.»

3 comentários :

António Viriato disse...

Garrett merece toda a nossa atenção e desvelo, pela sua categoria intelectual, pelo seu empenho cívico e pela sua notável e inovadora obra literária, servida por grande domínio estético da Língua. Daí que sejam de evitar as tentações da sua utilização política, sobretudo quando motivadas por inclinações partidárias.

António Viriato disse...

No comentário anterior, talvez um tanto despropositado, referia-me, ainda ssim, ao texto do colunista da Visão e não ao do blogue. Se, pelo facto, causei algum desagrado, aqui fica o meu mea culpa.

Maria Carvalho disse...

Caro António Viriato: A sua participação neste blog só tem o tem enriquecido. Obrigada pelas achegas e boas palavras.