14.1.13

Vénus ao toucador



Scandix pecten-veneris L.

Confesso que não fiz busca aturada, e nem sequer tive o cuidado de consultar dicionários botânicos. É sempre desagradável quando a realidade desmente algumas das nossas construções mentais favoritas. Além de sermos despojados de possíveis tópicos de conversa (pois um resquício de honestidade nos impede de propagar aquilo que sabemos ser falso), neste caso particular ficava o texto sem aquela assertividade que compensa o pouco saber pelo muito atrevimento.

Esta planta põe o selo de indiscutível na teoria que a avenca já insinuava: Vénus, a deusa romana do amor, é a única representante autorizada da feminilidade em taxonomia botânica. Ou da feminilidade do pescoço para cima. Ou pelo menos da que diz respeito às artes do toucador. Lineu, não satisfeito em enfeitar Vénus com uma peruca de negros fios de avenca, ainda lhe ofertou um pente tirado do mesmo grande armazém da natureza. É pouco comparado com o arsenal de tratamentos hoje disponível nos salões de beleza, mas os tempos eram outros e Vénus, como todos os deuses e deusas, usaria os seus poderes sobrenaturais para ultrapassar as limitações dos artefactos rústicos.

Impõe-se um interlúdio taxonómico-linguístico. A avenca que é espontânea em Portugal e na Europa (há espécies tropicais à venda em floristas) tem o nome científico, dado por Lineu, de Adiantum capillus-veneris, onde o capillus-veneris significa (quem diria?) "cabelos de Vénus". Na pequena umbelífera que hoje nos ocupa, e que fora do Olimpo é conhecida como agulha-de-pastor ou erva-agulheira, viu Lineu o "pente de Vénus" (pecten-veneris). São os frutos muito compridos e rígidos, filtrados pela imaginação, que explicam tanto o pente como as agulhas. Claro que esse "muito comprido" (uns 6 a 8 cm) deve atender às dimensões gerais de uma planta de porte modesto, em geral aquém dos 40 cm de altura.

A agulha-de-pastor, que é nativa da Europa, Ásia e norte de África, e que em Portugal só parece estar ausente do quadrante noroeste, é uma planta anual de campos agrícolas e baldios, em declínio como tantas outras por causa do uso generalizado de pesticidas.

7 comentários :

bea disse...

Vénus não usava pente :) era despenteada formusura, penteada pela natureza.

Mas não deixa de ser curioso que aquilo a que eu e os meus colegas da primária chamávamos garfos, seja cientificamente conhecido como pente de Vénus (estava capaz de lhes mandar um recado se soubera onde páram essas criaturas de bibe e soquete).

Magnífico o empenho com que a natureza se aperfeiçoa nas mais pequenas obras.

Rosa disse...

http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b52500984v/f19.zoom

Paulo Araújo disse...

Bonita imagem, Rosa. Do texto nada posso dizer por falta de prática com a caligrafia. Suspeito, porém, que a planta ilustrada não é a Scandix mas sim um Erodium (a que costumamos chamar bico-de-cegonha).

Francisco Clamote disse...

Espectacular, a planta e o "post". A planta não me lembro de alguma vez a ter avistado.

Rosa disse...

Também achei mas depois vi as folhinhas recortadas aqui das Scandix e fiquei na dúvida.

Paulo Araújo disse...

Obrigado, Francisco, pelo comentário. Esta planta e várias outras que têm aparecido por aqui, que costumavam aparecer em campos agrícolas mas têm rareado assustadoramente, vieram dos prados de Macedo de Cavaleiros. Dá ideia que a agricultura que por lá se pratica foi menos mortífera para a biodiversidade.

Paulo Araújo disse...

Rosa: vendo bem, embora nessa ilustração apareça (em francês) a legenda "bico-de-grou", que é nome de algumas espécies de Geranium e Erodium, a folhagem da planta ilustrada não se parece com a de nenhuma espécie que eu conheça desses dois géneros. Talvez a planta tenha saído da imaginação do ilustrador. Afinal, se os artistas medievais desenhavam unicórnios e outros animais inexistentes, por que não haveriam de fazer o mesmo com plantas?