4.3.13

Olho pálido



Tolpis umbellata Bertol. [sinónimo: Tolpis barbata subsp. umbelatta (Bertol.) Jahand. & Maire]

Um passatempo instrutivo, que os autores deste blogue praticam assiduamente, é o de anotar todas as plantas que observam nos seus passeios. Este "todas" é sujeito a ressalvas, pois, além das plantas desconhecidas, mas assaz distintivas para mais tarde sermos capazes de as identificar pelas fotos, existem aquelas que, no nosso actual estádio de conhecimento botânico, não temos esperança de resgatar do anonimato. Perdem-se assim quase todas as gramíneas, muitas umbelíferas e um bom número de asteráceas. No extremo oposto situam-se as velhas conhecidas que reencontramos sem surpresa nos sítios mais diversos. A leituga ou olho-de-mocho (Tolpis barbata) é daquelas plantas que faz o pleno do território nacional, incluindo os arquipélagos atlânticos, estando apenas ausente nas altitudes mais elevadas. Como planta anual que é, ela desaparece no Inverno, mas no resto do ano é tão comum e quotidiana que é frequente ignorarmos-lhe a presença.

Mas até para o olho-de-mocho vale a pena manter o olho aberto, pois certas variações podem fazer com que aquilo que parece trivial seja escasso ou mesmo raro. A planta da foto ilustra bem esse princípio de precaução, pois, além do seu aspecto pálido e sulfuroso, e da sua improvável fotogenia, apresenta uma pupila negra no centro do olho muito menor do que é regra na Tolpis barbata. Contudo, a coloração dos capítulos florais por si só é fraco comprovativo, já que são muitas as plantas que, por desfastio, ensaiam ocasionalmente algumas variações cromáticas. Há outro detalhe assinalável, visível na terceira foto em cima, que é o das brácteas externas não serem tão compridas nem tão proeminentes como os manuais botânicos costumam prescrever para a Tolpis barbata. A conclusão é que se trata de outra espécie, de seu nome Tolpis umbellata. O exemplar fotografado, precocemente primaveril, morava no Alto Minho, numa encosta pedregosa debruçada sobre o vale do rio Trovela.

Embora as suas peculiaridades sejam fáceis de apontar, nem todos os botânicos admitem a existência da Tolpis umbellata: ou a subordinam à Tolpis barbata como subespécie, ou lhe negam mesmo qualquer categoria taxonómica. João do Amaral Franco, no vol. 2 da Nova Flora de Portugal, hesita entre as duas posições, mas a Checklist da Flora de Portugal adopta a segunda, omitindo por completo a Tolpis umbellata. Entre os partidários da existência desta espécie encontram-se a Flora Digital de Portugal e o projecto Anthos. A Flora Ibérica, como ainda não se ocupou das asteráceas, não tem opinião oficial sobre o assunto; mas, dado que ela é coordenada, tal como o Anthos, por uma equipa do Real Jardim Botânico de Madrid, é provável que também venha a reconhecer a Tolpis umbellata como espécie autónoma.

4 comentários :

Carlos M. Silva disse...

Olá Paulo (e Maria)

Vocês ..são de facto sistematizadores, e embora se desculpem com as gramíneas que deixam escapar, só posso reconhecer que têm a paciência que só mesmo o conhecimento permite - e nenhum conhecimento é para já,para logo à noite!!.

De facto,quando no Minho/Pte.Lima,em Geocaching, e já no longínquo 2007?,a fotografei - e falo da T. barbata - foi o início titubeante de uma caminhada.E depois,cá por casa, e apenas numa das bermas encontrei-a e tenho-a lá mas nunca em grande quantidade.
Mas ..mas ..depois em 2009,nasceu-me um espécime num vaso que achei não bater certo com a T. barbata. Não mais me apareceu e no entanto acho poder reconhecer a T. barbata, pelo menos quando esta tem o olho bem aberto.
Sucede que essa que me nascera no vaso provocava-me 'coceira' e foi então que a coloquei à consideração do Naturdata, em 11/Nov/2011. E o Ian Smith disse o mesmo que aqui disseste, que não estando por cá reconhecida (embora com registo no ND) só poderia ser a T. barbata. E claro,aceito obviamente que seja a T. barbata. Mesmo assim, deixo também aqui à vossa consideração o link, caso queiram ter essa disponibilidade ..pois ..raios ..quando os olhos estão bem fechados ..tudo pode ser motivo de engodo:
http://naturdata.com/forum/viewtopic.php?f=10&t=270

Quanto às que tu aqui colocaste, reconheço que nunca vi algo assim. E até as folhas e caule, assim dispostos, são belos, no isolamento de um espécime.

Obrigado por este interessantíssimo apontamento botânico.
Carlos M. Silva

bea disse...

OH! achei esta Tolpis tão bonitinha em seu amarelo suave. E depois tem um irradiar de pétalas absolutamente charmoso. Bailarina estática. que mais se pode pedir a uma leituga que floresce de peito às balas?!

Paulo Araújo disse...

Olá, Carlos. Se virmos o mapa de distribuição no Anthos, concluímos que aquilo a que alguns chamam Tolpis umbellata existe em toda a Península Ibérica, e não apenas em Espanha. E um vaso é um sítio tão bom como qualquer outro para ela aparecer. Mas não conseguir ver as tuas fotos porque o acesso é só para utilizadores registados no Naturdata. Podes mandá-las por email?
Abraço,
Paulo

Carlos M. Silva disse...

Olá
Sim, enviarei!

Abraço
Carlos M. Silva