17.4.14

Família feliz


Orchis x bivonae Tod. (híbrido de O. anthropophora (L.) All. e O. italica Poir., ambas à direita)

Como se reconhece um híbrido e de que modo se podem descobrir os progenitores? A cautela justifica-se porque o olho do amador tende a valorizar pequenas diferenças, de cor, tamanho ou forma, que afinal não dão lugar ao reconhecimento de uma espécie nova. Vejamos um exemplo.

Há dias, na serra de Sicó, encontrámos a orquídea em flor que se vê nas duas primeiras fotos. Chamou-nos a atenção o tom rosa escuro dos labelos, que lembram os rapazinhos das flores de Aceras anthropophorum embora estes sejam geralmente amarelo-esverdeados. Nesta espécie, a flor não tem esporão (o termo grego aceras alude precisamente a essa ausência), mas recompensa os polinizadores com néctar que guarda em bolsinhas situada por baixo do capuz. Por isso, só recentemente, depois de apurados testes genéticos, foi esta espécie integrada no género Orchis: chama-se agora Orchis anthropophora. Pois bem, o leitor pode confirmar na foto, junto ao pedúnculo de cada flor, que os rapazinhos cor-de-rosa têm esporão. Desconfia-se, pois, que, ainda que descendam da Orchis anthropophora, têm outro progenitor, e esse terá de ser de espécie cujas flores nasçam providas de esporão. Mas qual? Uma vistoria aos arredores sugeriu-nos um candidato: os campos e prados próximos estavam repletos de magníficos exemplares em flor de O. italica, de permeio com muitos outros de O. anthropophora. Naturalmente, os polinizadores circulam sem hesitar entre as flores das duas espécies, misturando inadvertidamente o pólen das várias plantas. E, sim, a flor de O. italica tem esporão, curto e rechonchudo como o que vemos no híbrido. As flores são rosadas com um chapéu aberto e de pontas mais longas que na Aceras; além disso, o labelo é mais dividido, formando um menino de aparência irrequieta que, além das duas pernas, tem uma cauda. Este apêndice não é herdado pelo híbrido, ou surge nele muito reduzido.

Não fomos nós os primeiros a observar este filhote de O. anthropophora e O. italica. Do arquivo de fotos Orquídeas Silvestres Portuguesas, consta uma imagem da mesma orquídea encontrada em Ansião. E aqui há menção a vários locais onde se avistaram outros exemplares deste híbrido. Porém, o primeiro registo foi feito em 1840 pelo botânico italiano Agostino Todaro (1818-1892), um estudioso das orquídeas da Sicília. Chamou-lhe Orchis x bivonae, referindo-se certamente o epíteto a Bivona, terra siciliana de pêssegos famosos, na província de Agrigento.

3 comentários :

bea disse...

Boa Páscoa!

ZG disse...

Boa Páscoa, sempre com grandes plantas!!

Maria Carvalho disse...

Obrigada, bea e ZG.