4.11.14

Delfins, esporas & passarinhos



Delphinium halteratum Sm. subsp. halteratum

É pouco provável que quem viva em Manteigas alguma vez compre castanhas, não querendo isto dizer que não goste delas ou que dispense o magusto no São Martinho. Acontece que no Souto do Concelho, provavelmente o maior bosque de castanheiros em todo o país, as castanhas, pequenas mas deliciosas, são de uma abundância pródiga, e custam só o trabalho de as colher. Quem mora longe tem contudo que levar em conta os custos e a demora da deslocação, acabando por conformar-se em pagar por uma coisa que gente mais afortunada tem de graça ao pé da porta. É esse o nosso caso, por nunca visitarmos Manteiga na época certa que é Outubro a declinar, quando caem as castanhas e as folhas amarelecem e se preparam igualmente para cair.

Durante três anos consecutivos fomos ao Souto do Concelho entre o final de Junho e o início de Julho, das duas primeiras vezes para ver orquídeas, e da terceira, em 2013, para fotografar este delfim que tínhamos visto no ano anterior mas de que por imprevidência não registáramos imagens. Aquelas flores que por vezes julgamos reconhecer revelam-se afinal outra coisa quando as estudamos melhor. Já aqui mostrámos duas espécies de Delphinium: o D. pentagynum, que tem flores grandes, de um azul escuro e arroxeado, com pétalas laterais peludas, e vive em terrenos calcários pedregosos; e o D. gracile, mais esguio, de flores menores e de uma tonalidade mais clara. Pela cor das flores e pelo recorte das folhas, o D. halteratum parece-se mais com o primeiro, mas diferencia-se pelo esporão mais comprido, claramente revirado para cima, e pela ausência de pilosidade nas pétalas. Além disso, trata-se de uma planta anual (o D. pentagynum é perene) de tendências ruderais, aparecendo junto a caminhos e em terrenos incultos, sem preferência declarada por qualquer tipo de substrato.

As plantas anuais vivem sempre no fio da navalha: em cada ano têm que produzir sementes em quantidade bastante para assegurar a existência de uma nova geração no ano seguinte. Para que os polinizadores não faltem à chamada, há que recompensar generosamente os seus serviços com o néctar armazenado nas flores. Nas espécies do género Delphinium, cada flor é composta por cinco sépalas semelhantes a pétalas, uma delas prolongando-se no esporão, e por quatro verdadeiras pétalas situadas no centro da flor, as duas superiores dispondo de glândulas nectaríferas que se acolhem dentro do esporão. Para ter acesso à recompensa, o insecto visitante terá que se roçar nas anteras e no estigma, cumprindo assim, involutariamente, a tarefa para que foi convocado.

Assinale-se, para concluir, que em Portugal estão descritas duas subespécies de Delphinium halteratum: a subespécie nominal, representada nas fotos, e a subespécie verdunense. Não se distinguem pelas preferências ecológicas, mas sim por certos detalhes morfológicos: a subsp. halteratum tem uma inflorescência mais alongada e com maior número de flores, e as suas folhas na parte superior do caule são simples, enquanto que as da subsp. verdunense são trífidas.

2 comentários :

bea disse...

É tão bonito voltar a Manteigas por uma plantinha silvestre e não por castanhas! (mesmo estando elas bem caras este ano).

As esporas são flores-peixe, a implantação no caule dá-lhes esse ar.

ZG disse...

Sim, o Delphinium é mais interessante que as castanhas, embora estas possam eventualmente ter propriedades medicinais, quem sabe???