18.10.17

Flores do arco-íris

Hibernar não é, como sabemos, um privilégio dos ursos. Nas montanhas que se cobrem de neve quase todo o ano, são inúmeras as espécies de plantas que, tendo começado por arriscar pouco sendo anuais, evoluíram para formas perenes ou que geram sementes que, como as princesas dos contos de fadas, adormecem por longos períodos sem perder a viabilidade. Adequar-se com prudência a esse habitat extremamente frio, que só permite uma espreitadela ao sol numa fracção mínima do ano, exigiu adaptações minuciosas, e decerto várias tentativas até ao sucesso. No caso do género Androsace, um dos poucos com espécies a viver acima dos 4000 metros, o que notamos hoje é que as rosetas basais de folhas cobertas de penugem da Androsace villosa sem dúvida a beneficiam, pois as almofadinhas de folhas agasalham melhor a base frágil da planta e asseguram estabilidade em fissuras rochosas de taludes inclinados e expostos. E também nos parece que, num habitat com tanta brancura, as flores alvas têm maior chance de sobreviver aos predadores, não deixando de ser avistadas pelos polinizadores graças ao centro da corola mais garrido (como é usual na família Primulaceae). E não diriam igualmente que formar tapetes de flores é um excelente plano para uma planta rasteira com flores minúsculas como estes jasmins-da-rocha?


Androsace villosa L.



Pois sim, acreditamos que estes aspectos morfológicos são adaptações ao ambiente, mas como se confirmam cientificamente estas opiniões? Fomos à procura de artigos científicos neste assunto, e encontrámos publicações de botânicos empenhados em comprovar que as condições climáticas nas montanhas do hemisfério norte ajudaram a moldar a forma e o ciclo de vida que hoje conhecemos em algumas espécies do género Androsace, criando oportunidades valiosas de colonização.

Para testar as inúmeras hipóteses sobre os possíveis mecanismos de pressão selectiva, houve que criar modelos matemáticos que simulassem vários cenários de evolução, a interacção gradual com o habitat e a variação mais ou menos aleatória das condições necessárias à viabilidade das plantas. Juntaram-se-lhes análises genéticas para aferir o grau de diversidade de várias espécies conhecidas neste género (que somam cerca de 110), adaptadas a distintas ecologias, e para quantificar outros sinais filogenéticos com valor estatístico. Em resumo, as conclusões dos cientistas revelam que é bastante provável que, neste caso, haja uma conexão relevante entre a ecologia e a evolução morfológica: quando as espécies ancestrais de Androsace, com regimes anuais, chegaram a zonas mais frias e de maior altitude sem poder retroceder, a forma almofadada da folhagem foi a inovação que lhes conferiu a resistência e a tolerância adequadas ao clima agreste.

As drásticas alterações climáticas que a humanidade está a impor à Terra, combinadas com a reduzida capacidade destas herbáceas de migrar rapidamente para outros nichos, podem levar a que estes ajustes ao clima e ao meio ambiente, que nos parecem tão fantásticos, as condenem afinal a desaparecer depois de milhões de anos de esforço de sobrevivência em regiões montanhosas dispersas, isoladas e antes fragmentadas pela neve. Com elas se apagará um legado notável na história geológica e evolutiva do planeta.

1 comentário :

bea disse...

Que pena! Depois de tanta adaptação para sobreviver. E não sucede o mesmo connosco?! Cada um luta sozinho ou acompanhado em prol da sobrevivência que não dura. A vida é injusta. Ainda que, neste caso, a injustiça lhe venha por mão humana.
Boa semana:).