7.6.06

Tribunal

Somos nós os culpados do que somos.
E é de mim que me queixo.
Tão intensa foi sempre a minha voz,
que ninguém a entendeu.
Por isso, quanto mais água pedi,
Mais distante me vi
De cada fonte que me apeteceu.

E agora é tarde, já nem sede tenho.
Ou tenho-a como os cactos:
Eriçada de espinhos.
Olho de longe a bica tentadora,
Adivinho-lhe o gosto e a frescura,
E é de borco na areia abrasadora
Que refresco a secura.


Miguel Torga, Diário VIII (1959)

5 comentários :

Dalva disse...

Que foto maravilhosa! Vontade roubá-la... devo? Sempre passo aqui, via "De operas e de lagartos", e não me canso de achar tudo muito lindo, muito culto, muito bom. Parabéns!

Paulo Araújo disse...

Obrigado pela simpatia. Pode usar a foto à vontade, só agradecemos que mencione de onde a tirou.

Alexandre Sousa disse...

Tenho o meu primeiro livro à venda no meu blog. Que tal uma visita?

vera do val disse...

Que foto mais linda. Vou roubá-la tb. Pena que não diz o nome da flor.
Parece uma donzela vestida de noiva. Parabéns

lenço de papel; cabide de simplicidades disse...

Se é Diário VIII, é de 1979.

O VII é que éda data aqui postada.
Obrigada