22.7.14

Queiró insular




Daboecia azorica Tutin & Warb.

A distribuição do género Daboecia, que alberga apenas duas espécies, subordina-se à exigência de uma elevada acidez do solo, mas ainda assim é curiosa: estas plantas são espontâneas apenas no sudoeste de França, norte de Espanha, noroeste de Portugal, ponta sudoeste da Irlanda, e Açores. A espécie das ilhas açorianas dá flores mais pequenas, com corolas glabras, mas igualmente caducas, num tom de carmim quase púrpura, que se dispõem em cachos de 3 a 7 flores e se detectam facilmente em matos ralos no fim da Primavera (a D. cantabrica floresce mais tarde, de Junho a Outubro). Há registos da presença deste queiró em quatro das nove ilhas, mas parece ser frequente apenas no Faial e na montanha do Pico. Tal como a versão europeia, de que por certo descende, é um arbusto baixo, perene, de base lenhosa e caules decumbentes; as duas apreciam urzais (embora nos Açores a urze em causa seja a endémica Erica azorica), mas a açoriana adaptou-se à intensa humidade atmosférica das ilhas e aparece também em encostas vulcânicas cascalhentas (geralmente acima dos 500 metros).

Há mais diferenças que justifiquem a independência da D. azorica como espécie? Os descritores desta planta, os britânicos Thomas Gaskell Tutin (1908-1987) e Edmund Frederic Warburg (1908-1966), co-autores da Flora of the British Isles e da Flora Europaea, assim o entenderam depois de uma visita de exploração botânica às ilhas do Faial e do Pico em 1929. Anunciaram a descoberta três anos depois, no Journal of Botany, British and Foreign. Publicaram dois artigos com o que viram nos Açores, e tempos depois receberam mais financiamento para novas expedições, algumas delas notáveis pelo contributo que trouxeram à salvaguarda da biodiversidade no mundo.

O estudo da flora açoriana, desde o século XIX até meados do século XX, deve-se sobretudo a cientistas estrangeiros. Na verdade, naquela época não havia universidade ou centros de investigação nos Açores, e no continente os botânicos (os que não andavam entretidos nas colónias) cuidavam de recuperar o atraso na descrição da flora local, para logo depois se começarem a preocupar com a dimensão das ameaças à natureza e com a necessidade de medidas de protecção. Além disso, desde a época dos descobrimentos que o apoio à pesquisa científica, sobretudo àquela que exige demorados trabalhos de campo, tecnologia avançada e redes alargadas de cooperação, tem o tamanho da pobreza do país. Que continua a ignorar para que serve a investigação em ciências naturais, ou não quer dar-lhe uso porque são outros os interesses que nos governam. É decerto por isso que ainda hoje são os cientistas estrangeiros que nos avaliam, que decidem qual o conhecimento que o país deve incentivar, que ditam o futuro da nossa ciência e, portanto, do nosso território.

2 comentários :

ZG disse...

Que beleza!!

bea disse...

tão surpreendentmente bonitas! As suas linhas superam qualquer ogiva ou arco de volta perfeita. Há uma arquitectura natural da flora que nos abisma.