17.1.15

O jardim na sala


O desconhecer-se as regras geraes da cultura das plantas e o seu habitat, que é um dos principaes pontos, senão o principal, a que se deve attender quando se transporta para o jardim ou para a sala um vegetal, leva as pessoas menos versadas em horticultura a praticarem operações que julgam optimas, mas que são contraproducentes.
A cultura dos Fetos exige uns certos cuidados e é preciso que o amador tome em consideração o seu habitat. Na distribuição dos vegetais vemos que os esmaltes pertencem aos prados; as plantas arrastadiças e sarmentosas ás montanhas e aos rochedos alcantilados e os Fetos ao sombrio dos arvoredos. Percorrei os umbrosos regatos e ahi os encontrareis, mostrando uma vegetação mais luxuriante do que se fossem rodeados de todos os cuidados da arte.
É extremamente curioso observar-se a maneira como vegeta a maior parte dos nossos Fetos, sahidos das estreitas fendas dos muros, onde parece que deve haver falta de condições essenciais à boa vegetação. Mas este facto da posição quase oblíqua que tomam quando estão completamente entregues nas mãos da natureza, não deve passar indifferentemente ao cultivador.
O snr. Augusto Luso, cavalheiro muito conhecido dos homens que trabalham, porque é investigador incansavel, tem-se ocupado muito dos Fetos, não só sob o ponto de vista scientifico, mas considerando-os tambem horticolamente. Suppomos até que não haverá no paiz herbario de cryptogamicas tão rico como o d'este nosso amigo.
Ora o snr. A. Luso observou que muitos dos Fetos que procurava cultivar, quer em plena terra quer em vaso, depois de serem dispostos na nova habitação que se lhes destinava, começavam a entristecer, a amuar, a crescer pouco, a reproduzir-se mal, morrendo muitas vezes, signal de que estavam sob condições pouco convenientes.
Este facto actuou por tal modo no snr. A. Luso que lhe suggeriu a ideia de fazer uns vasos com uma nova disposição, ideia que reputamos felicissima.
D'esses vasos dão ideia exacta as gravuras 30 e 31. A abertura superior serve para se poder regar a planta, e no fundo deverá haver um ou mais orificios que facilitem a sahida da agua.
Na abertura de cima poder-se-ha dispôr uma planta que não exija posição oblíqua, como se vê na fig. 30.
Em Inglaterra usa-se muito para os Fetos uma especie de rochedos de fórmas caprichosas, feitos de barro, cujos intersticios e cavidades são cheios de terra e ahi dispostas as plantas, imitando-se por meio da arte a natureza.
Damos a gravura de um d'esse rochedos artificiaes (fig. 32), que recommendamos como um magnifico objecto de ornamento para o centro de mezas.
Associadas aos Fetos de pequeno porte podem estar algumas Selaginellas, plantas que casam muito bem umas com as outras.
As condições geraes para a cultura dos Fetos são: dar-lhes sombra, luz diffusa atravez das cortinas e nunca em contacto directo com os raios do sol; uma atmosphera humida quanto seja possivel, o que se obtem por meio de regas frequentes mas parcimoniosas; um solo composto principalmente de detritos lenhosos e de terra muito negra; emfim, uma drainagem bem feita, de modo que a agua tenha a sahida completamente livre. Com estes cuidados os Fetos devem crescer ás maravilhas.
Os Fetos são plantas muito proprias para os quartos onde há quasi sempre meia luz. Accresce que a sua verdura alegra-nos e distrahe-nos: as suas fórmas infinitas e graciosas agradam a todos e fallam ao espirito, não só pelo seu lado util, como pela sua interessante historia. (...)
Não ha hoje uma só dama que não se extasie deante dos representantes d'esta familia e que não sinta desejos de ter alguns no seu boudoir.
Duarte de Oliveira, Junior - O Jardim na Sala (pp. 198-202) - Porto, 1876



José Duarte de Oliveira (1848-1927) foi redactor do Jornal de Horticultura Prática e um dos heróis do nosso livro À sombra de árvores com história. Graças à amabilidade de Patxi Suarez Boada, o livro O Jardim na Sala, publicado por Duarte de Oliveira em 1876, está disponível em ficheiro PDF ao fundo desta página. O exemplar digitalizado está autografado por Alfredo Moreira da Silva (1859-1932), um dos históricos horticultores portuenses da viragem do século XIX para o século XX.

3 comentários :

bea disse...

Duarte Oliveira Junior tinha umas façanhudas patilhas mas era belo espécime. E deixou obra interessante. Quem sabe os fetos que me morreram não desgostaram de mim mas do habitat. Fiquei um pouco mais descansada. Na altura vaticinei-lhes um amuo de morte.

Carlos M. Silva disse...

Olá

Obrigado pela ligação ao pdf (e por v/ intermédio ao autor que o disponibiliza).
Para mim esta família de plantas é uma das que vou deixando para as calendas como aliás muitas outras até que o esporo qualquer me faça espirrar!!!
Mas reconheço, trazem a História da Terra com eles ..e portanto é bom conhecer.
Abraço.
Carlos M. Silva

Paulo Araújo disse...

Bea:
Também tenho tido algumas experiências infelizes no cultivo de fetos. Nisto de horticultura parece que em século e meio apenas regredimos, e muito.

Olá, Carlos.
Admito que para quem gosta de insectos e outros bichos os fetos são pouco interessantes. Mas vá lá, podias dar-lhes uma oportunidade.
Abraço,
Paulo