5.1.16

O regresso da memória

Não somos apenas o nosso corpo, e cada vez mais delegamos em artefactos a construção da nossa identidade mais íntima. A memória interna, aquela que carregamos no cérebro, enferruja por falta de uso, e parece que a sua capacidade de armazenamento diminui à mesma velocidade a que aumenta a dos periféricos onde vamos arrumando as nossas lembranças. Mensagens trocadas, contactos, fotos, o itinerário das férias, efemérides pessoais ou alheias, mapas e indicações de percursos, o nome desta planta, o nome daquela cara, a cidade onde havia este jardim, a praia sem rede e sem nadador-salvador: tudo o que estava dentro de nós e transferimos para a máquina, e que só ressuscita quando a ela nos ligamos. Para não notarmos o vazio, estamos sempre ligados.

E se a máquina se apagasse por acidente, e não existisse cópia de segurança? Foi essa amnésia tecnológica que nos atingiu faz agora seis semanas, quando uma actualização não solicitada do sistema operativo do computador limpou o disco externo onde guardávamos as fotos. Onze anos de passeios, de lugares, de nomes: milhares de memórias que de um instante para o outro deixaram de existir, consumidas por um incêndio sem chamas. Que fazer? Pedir uma indemnização à Microsoft? Solicitar os serviços de um mago das novas tecnologias? A solução foi usar um programa que por cem dólares nos pareceu uma pechincha e que, depois de escavar durante 12 horas em busca dos MB desaparecidos, trouxe à superfície, mais ou menos intactas, todas as fotos que alguma vez tiráramos e quem sabe se mais algumas. O óbice é que os nomes das fotos se tinham em grande parte perdido, e da meticulosa organização por pastas só sobrava um esqueleto sumário. Mas a matéria-prima estava lá, e à tarefa de reconstruir a memória nos entregámos neste Dezembro de 2015. Plantas, lugares, pessoas e bichos voltaram a ter nome. Ficaram de fora algumas pedras do Gerês que só conseguiremos nomear quando as reencontrarmos.

Esta nossa estreia em 2016 faz-se pois dessas memórias resgatadas, com duas plantas do género Stachys, ambas com fama medicinal e ambas presentes no nosso país, mas uma delas fotografada na Cantábria. Muito a propósito, a Stachys officinalis foi outrora usada para tratamento de problemas nervosos e de dores de cabeça e como tónico para avivar a memória.



Stachys officinalis (L.) R.Trevis. (fotografada em Cantanhede)

Lineu chamou-lhe Betonica officinalis, querendo com a escolha do epíteto assinalar-lhe a utilidade nas artes do boticário. Florindo entre Maio e Julho, a betónica (o nome lineano sobreviveu no vernáculo em várias línguas europeias) aparece aqui e ali de norte a sul do continente português, em clareiras de matos ou orlas de bosques sobre solos siliciosos. Mesmo no estado vegetativo, é facil de reconhecer pelas folhas de margens crenadas, formando uma roseta basal algo caótica. As suas hastes são finas e altas (até 90 cm), não ramificadas, com as flores reunidas em espiga na extremidade ou dispostas mais abaixo em verticilos esparsos.


Stachys sylvatica L. (fotografada na Cantábria)

A S. sylvatica, que em Portugal só parece ocorrer em Trás-os-Montes, prefere lugares abrigados e húmidos, e tem flores maiores e mais vistosas do que a sua congénere, resultado da necessidade de dar nas vistas e atrair polinizadores entre a competição cerrada das plantas de sub-bosque. Não tão versátil como planta curandeira, era usada e cultivada para tratar feridas, e por isso os britânicos lhe chamam woundwort.

5 comentários :

Carlos M. Silva disse...

Ora bem, caros 'sonâmbulos'da memória recuperada: bem regressados à vida, então! com belas plantas e belas fotos (esta como muitas outras que se escondem ao meu olhar..).
Poder-se-ia inferir que situações como as descreveram nos tornariam mais leves; mas desde que o Kundera escreveu que a leveza era insustentável, quem quer uma leveza dessas? é preferível carregar (mesmo que como Sísifo, com as fotos pelo monte acima e abaixo) com todo o peso porque há o risco da leveza se tornar um qualquer vazio.
NOTA: também já me sucedeu (disco externo infiel, pois claro, que se apagou sem avisar que se finava) mas que deu, se não para o fazer voltar à vida, deu para largar os filhos que continha!!!
Por isso ..publish or perish!!! (mesmo que seja a razoável velocidade).
Abraço para vós do
Carlos


Carlos M. Silva disse...

NOTA adicional (passando por cima da publicidade).
E até não actualizei para o W10.
E foi o stellar phoenix que me salvou, com esqueleto, armários e tudo; com alguns danos que a repetição de fotos fez desprezar; não demorou 12h mas 1 mês a escavar bit a bit, cerca de 1Tb.
Portanto ..nada está garantido mas apesar de tudo ..muito está.
Cumprimentos
Carlos

bea disse...

Oh!A tecnologia tem destes enredos.Já tenho pensado nisso porque não guardo as palavras passe senão na memória...e não é que um dia destes esqueci? Ou não acertei. De repente, entendi que vai haver uma vez - se não as escreva, o que ainda não fiz - em que não vou ter acesso a mails, não faço comentários...coisas assim.

Isto se não haja uma actualização esmalucada que suma com tudo, como vos aconteceu:)

Bom Ano de 2016. E muita paciência para refazer a catalogação e as pastas.

OLima disse...

Bem hajam. Oxalá não sofram mais acidentes deste tipo, sempre arreliantes. Bom Ano Novo de 2016.

Paulo Araújo disse...

Bea: Um óptimo ano de 2016, e muito obrigado por todos os comentários que vai aqui deixando.

Octávio: Obrigado pelos bons votos, que retribuímos. Um acidente como este é de facto arreliante, e (trancas à porta...) já tomámos precauções para evitar que ele se repita. Mas foi uma também oportunidade para mergulhar em coisas que já tínhamos esquecido.

Carlos: Não vou dar o nome do programa que nos socorreu, mas ele é mesmo muito recomendável em casos como este. Irritante é que não precisávamos coisa nenhuma de actualizar para o Windows 10, e só o fizemos porque o computador não se "calava" dizendo que tinha a actualização (que nunca pedimos) pronta para ser instalada. No Windows 11 já não caímos...