24.6.16

Iscas com todas




Phagnalon lowei DC. [sinónimos: P. hansenii Qaiser & Lack; P. bennettii Lowe]

Iscas é o nome que no Porto Santo se dá a este arbusto. Podem ser o prato principal, como na culinária dos pobres, mas são muito mais comuns como acompanhamento, ou deveríamos talvez dizer como entradas. Distribuídas desde o litoral até aos picos mais altos, acompanham todas as outras plantas da ilha, e servem de entrada a quem se quiser ir familiarizando com a flora do arquipélago. A sua preferência por lugares secos e pedregosos faz de toda a ilha um potencial habitat, e estas iscas floridas não se fizeram rogadas em aceitar o convite. Na Madeira, onde também ocorrem, as condições não lhes são tão favoráveis, e por isso se encontram restritas a algumas escarpas do sul da ilha e à Ponta de São Lourenço.

O hábito mais compacto e erecto do Phagnalon lowei permite distingui-lo do P. saxatile, o rastejante e desgrenhado alecrim-dos-muros que encontramos de norte a sul do território continental. Há também diferenças nas brácteas involucrais (as do P. saxatile são pontiagudas, enquanto que as do P. lowei são rombudas na ponta, com largas margens escariosas) e no notório engrossamento dos pedúnculos do P. lowei logo abaixo dos capítulos florais. Tudo ponderado, o veredicto, tanto das checklists mais recentes como de Press & Short no livro Flora of Madeira, é que este Phagnalon é endémico do arquipélago.

A história, porém, é mais complicada do que isso, como aliás indicia a profusão de sinónimos na legenda das fotos. Se consultarmos o portal The Plant List, vemos que cada uma das três designações desta espécie é tida como sinónimo de Phagnalon saxatile. Parece haver quem considere que as indubitáveis diferenças com o P. saxatile caem dentro da variabilidade desta espécie, não sendo por isso definidoras de uma espécie autónoma; mas que nem o sejam de uma subespécie já parece má vontade.

Na verdade o problema já vem de Lowe, que no seu A Manual Flora of Madeira (1868) descreve três espécies de Phagnalon (ou, como ele prefere, Gnaphalon) no território: P. saxatile, P. rupestre e P. bennettii. As descrições das duas últimas condizem melhor com a planta que hoje conhecemos no Porto Santo, mas Lowe só assinala P. rupestre nalguns picos da ilha e restringe P. bennettii, que considera muito rara, a um único local da Madeira. Quanto ao P. saxatile, o mesmo Lowe informa que ele é comum no Porto Santo a todas as altitudes. Press & Short, em 1994, diminuem a lista de espécies de Phagnalon no arquipélago para duas, omitindo o P. rupestre e pondo em dúvida a presença do P. saxatile no Porto Santo; mas acrescentam a estranha informação de que o P. bennettii é raro nesta ilha. Finalmente, em 2000, Roberto Jardim e David Francisco, no livro Flora Endémica da Madeira, esclarecem, para nossa tranquilidade, que o P. bennettii (a que chamam P. hansenii) é afinal muito comum no Porto Santo.

Como desfazer este imbróglio? Devemos aceitar que a planta descrita por Lowe como P. bennettii, colhida por ele na Madeira, é a mesma que existe abundantemente no Porto Santo, apesar de ele próprio a não ter reconhecido aquando das suas expedições botânicas à ilha, confundindo-a com o banal P. saxatile? Ou Lowe descreveu de facto uma espécie raríssima, exclusiva da Madeira, quiçá entretanto desaparecida? Quando estas perguntas tiverem uma resposta satisfatória, talvez as iscas do Porto Santo, que têm mantido o nome popular no meio de todas as confusões e hesitações taxonómicas, sejam obrigadas a abdicar de alguns dos nomes científicos que hoje ostentam.

Ilhéu de Cima e Pico do Maçarico vistos do Pico do Concelho

1 comentário :

bea disse...

Tão bonita a foto por baixo das ditas iscas que proliferam pelas duas ilhas.