22.8.06

Piteira

«(...) Servem as piteiras no Algarve para formar os vallados das fazendas quasi geralmente: há dellas grande quantidade. (...) He bem curioso o relatório que faz o celebre Francisco Fernandes, medico de Filipe II, dos usos para que a piteira serve na America aos Indios.
"Com ella entrincheirão elles as suas habitações formando cercas impenetráveis: os talos, ou tiges, servem de vigas, as folhas de telhas; destas tirão fios com que fazem tecidos, e huma espécie de calçado; e das raizes os tirão para fazer sogas fortes; os grandes picos, em que acabão as folhas lhes servem de pregos, agilhões, alfinetes, agulhas, e ainda de uma espécie de armas de que usão nos combates: também formão com eles sedeiras para sedar as fibras de que tecem os pannos. Cortão as pontas das folhas tenras nas plantas não muito grandes e que estão viçosas, e dellas corre em muita abundancia hum licor que tem por medicinal para varias enfermidades; evaporando um pouco ao lume esse licôr este licôr se concentra, torna doce, e forma hum arrobe de que se faz assucar; juntando ao dicto licôr huma porção de água, e cascas e flor de laranja, limão e outras, e deixando-o fermentar se faz vinho a que chamam Pulque, de que muito gostão, e com que se embriagão; do mesmo licôr se faz vinagre.

Comem assados debaixo da terra os pedaços mais grossos das folhas, e o sumo dellas he muito efficaz para curar as feridas recentes e ulceras. As folhas assadas curão as convulsões, sendo applicadas à parte afecta; e mitigão a dor, principalmente se se bebe o sumo quente; porém embotão os sentidos e entorpecem."»

in LOPES, João Baptista da Silva, Corografia ou memória económica, estatística e topográfica do reino do Algarve, Academia Real das Ciências de Lisboa, 1841 (edição facsimilada da Algarve em Foco Editora, 1988), p. 150

2 comentários :

Anónimo disse...

queria saber qual a diferença entre piteira e espada de são jorge.si é ou não a mesma planta e si posso passar o sumo da piteira no cabelo para queda?

Paulo Araújo disse...

Por favor dirija essa pergunta à Manuela Ramos, que foi quem publicou este texto. Veja o contacto dela na coluna da esquerda.