7.11.15

Floricos nas alturas



Erigeron alpinus L.

A impermeabilização das cidades é notícia quando chove muito, a água não tem por onde escoar e as ruas se transformam em rios impetuosos. Não, a culpa não é de Deus: como saberá quem nele acredita, o mundo não foi criado assim com tanto cimento e asfalto. Contudo, descontando as borrascas ocasionais que perturbam a tranquila artificialidade da nossa existência, este habitat urbano feito por nós e à nossa medida até nos convém. O mesmo não dirão as árvores ou, em geral, as plantas que precisem de uma camada de solo para se desenvolverem. No entanto, as plantas têm uma capacidade de adaptação extraordinária, e onde não há solo há muros de pedra velha que o tempo desgastou. Há árvores que conseguem crescer (embora pouco) nesses nichos ecológicos, juntando-se aos fetos e a herbáceas especializadas como o alecrim-das-paredes, as ruínas, os alfinetes e o samacalo-peludo. Um guia de campo intitulado Flora dos Muros e Paredões da Cidade do Porto poderia ser mais útil e formativo do que muitos que por aí se publicam. Outra planta de menção obrigatória nesse guia seria o Erigeron karvinskianus, um malmequer de origem mexicana a que vulgarmente chamamos floricos, e que dá flores variando entre o branco, o rosa e o lilás.

Já foi maior a nossa simpatia pelos floricos. Se se limitasse aos muros das cidades ou aos caminhos nitrificados das aldeias, nada teríamos contra o E. karvinskianus, mas em certas ilhas açorianas (São Jorge, Faial, Graciosa) ele tem assumido um comportamento invasor, competindo com a ameaçada vegetação nativa. É interessante saber, porém, que o género Erigeron não é exclusivo do novo mundo, e está também representado no lado de cá do Atlântico por meia dúzia de espécies nativas, uma das quais (E. acris), embora muito rara no nosso país, até faz parte da flora portuguesa. Mais bonita, com capítulos mais vistosos, é a margarida que hoje apresentamos, moradora de prados alpinos, distribuída pelas cadeias montanhosas de grande parte da Europa e mesmo da Península Ibérica, mas ausente de Portugal e da Galiza.

Os géneros Erigeron e Aster, este último representado em Portugal por três espécies indígenas e duas naturalizadas, são bastante próximos um do outro: ambos têm folhas inteiras e apresentam capítulos brancos ou violáceos, cada um deles formado por flores liguladas femininas e por flores tubulares bissexuais. Contudo, os Aster portugueses são glabros e têm folhas pecioladas, enquanto que o Erigeron alpinus é hirsuto e as suas folhas caulinares são sésseis, quase amplexicaules. O tamanho não fornece um diagnóstico fiável: o E. alpinus é pequeno, ficando-se entre os 5 e 30 cm de altura, mas o Aster aragonensis é também uma planta diminuta.

Como muitas plantas de montanha, o Erigeron alpinus floresce no Verão, entre Julho e Agosto. Estando a temporada ainda no início, não nos foi fácil na primeira semana de Julho avistá-lo no topo do Pico Tres Mares, mas é provável que ele seja frequente nessa e noutras montanhas da Cantábria.

2 comentários :

ZG disse...

Mais uma extraordinária beldade alpestre!!

bea disse...

Tem uma cor extraordinária, esta margarida silvestre. E as fotos tb estão muito bem.