3.5.16

Sobre os pés



Plantago serraria L.

Quem sabe latim - ou não sabe mas vai aprendendo umas migalhas à custa dos nomes botânicos - por certo não desconhece que planta e têm quase o mesmo significado, como aliás denuncia a expressão planta do pé. Dir-se-ia até, falseando a etimologia, que as duas palavras têm a mesma raiz, mas enquanto que nós, os donos dos pés, podemos ter raízes metafóricas, as plantas têm-nas de verdade. É porém um facto indesmentível que tanto plantas como pés foram feitos, de um modo geral, para assentar no chão. Daí que a palavra latina planta se aplique de igual modo ao vegetal (em especial na fase de rebento) e a essa parte basilar da anatomia humana.

Se, por via do latim, todas as plantas têm alguma coisa a ver com os pés, já as do género Plantago se destacam por manter com eles uma relação mais íntima. Plantago, dizem os entendidos, traduz-se justamente por planta do pé - o que, como agora sabemos, é uma expressão algo pleonástica. Tal designação dever-se-á à forma das folhas de certas espécies: as do Plantago major fazem lembrar chinelos dispostos em círculo, com os calcalhares virados para dentro. Em espécies de folha mais estreita, como P. lanceolata ou P. maritima, a semelhança pedestre é bem menos vincada. Há porém outra afinidade entre estas plantas e os nossos pés: são várias as espécies de Plantago que se dão muito bem em lugares pisoteados tais como caminhos ou parques de estacionamento. Quanto mais calcamos os rebentos de P. coronopus e P. major que espreitam entre as pedras mais eles ganham forças para se reproduzirem. E à mesma escola masoquista pertence de pleno direito o Plantago serraria, o primeiro dos dois que hoje aqui mostramos.

A roseta basal do Plantago serraria, formada por folhas grandes, por vezes com mais de 20 cm de comprimento, é inconfundível (ver 1.ª foto) e permite identificá-lo em qualquer altura do ano. Preferindo substratos calcários e solos argilosos, vive no centro e sul de Portugal continental e na metade oeste da bacia mediterrânica. É presença habitual nas clareiras dos matos de zimbro que revestem o litoral de Sintra e Cascais.


Plantago bellardii All.

O Plantago bellardii é anual e de porte discreto, e por isso mais difícil de observar, embora não seja menos frequente e beneficie até de uma distribuição mediterrânica mais ampla. Ao contrário do seu congénere, não consta que fique grato quando lhe põem um pé em cima. A sua haste raramente atinge os 10 cm de altura, e as folhas ficam-se pelos 5 cm de comprimento; a sua espiga é compacta, contrastando com a espiga alongada do P. serraria. Vimo-lo nos pinhais da Tocha, mas, exigindo sempre solos ácidos, é suficientemente versátil para aparecer também em montados longe da costa.

1 comentário :

bea disse...

Já pisei o plantago serraria e lembro-me de pensar que era uma planta estranha, parece feita para ser pisada, molda-se ao peso de quem a pisa e não quebra. Agora entendi o resto. Obrigada.