3.9.16

Flores cristalizadas

Imagine-se em pleno século XV, à chegada de um barco de navegadores a uma ilha nunca habitada. Derreados de cansaço, receosos da terra estranha e impressionados com o silêncio, talvez comecem por um fogo que abra uma clareira, mostre caminhos e afaste perigos. De seguida, há que encontrar água doce, alimento e abrigo. Só muito depois surgirão outras preocupações, como a limpeza pessoal e a do lugar. Nesse tempo, fazer uma mistura de água quente e cinzas de soda para branquear a roupa era acessível a todos a partir das folhas esmagadas ou queimadas de várias plantas comuns à beira mar. A barrilha (Mesembryanthemum cristallinum) era uma das mais usadas para se produzir um substituto do sabão, reservando-se as folhas da erva-do-orvalho (Mesembryanthemum nodiflorum), comestível e fonte importante de sal, para saladas e caldos. Há registos do plantio destas espécies no ilhéu Chão; actualmente, sem uso, são ambas muito frequentes em todo o arquipélago da Madeira, sobretudo perto do mar.



Mesembryanthemum crystallinum L.


Mesembryanthemum nodiflorum L.

As duas espécies de Mesembryanthemum que vimos no Porto Santo só denunciavam o parentesco pelas flores. A M. nodiflorum é mais frágil e as folhas são cilíndricas, sésseis e avermelhadas, exibindo alguns pêlos cristalinos que guardam água e sal, enquanto a protegem de geadas, ventos e insolações. É nativa da região mediterrânica, Macaronésia e zonas costeiras da Península Ibérica. A M. cristallinum (orvalho-da-aurora ou erva-gelada) é maior e mais vistosa, com as folhas ovadas ou espatuladas em arranjo compacto e densamente cobertas por balõezinhos cristalinos. Ocorre também em arribas litorais e dunas do continente. Com origem em substratos rochosos, arenosos ou argilosos do sul de África e Europa, é considerada exótica em Portugal continental e nas ilhas. Mas é de crer que em algum momento do passado ambas as espécies de Mesembryanthemum tenham sido exóticas no arquipélago da Madeira.

Há dois pormenores curiosos da adaptação das plantas do género Mesembryanthemum ao intolerável excesso de sal. Este acumula-se nas raízes e folhagem, mas é libertado à medida que as folhas envelhecem e caem. Desse modo, em vez de ser um problema, o sal transforma-se num aliado precioso para estas plantas. É que, durante a fase de produção de sementes, grandes porções da planta secam e espalham muito sal pelo chão, assegurando assim na vizinhança um habitat salgado que nenhuma outra planta consegue colonizar, e onde as suas sementes germinam sem concorrência. Quanto à aridez e calor extremos, também aí estas plantas são engenhosas a sobreviver. As suas folhas estão formatadas para, durante o dia, reduzirem a absorção de dióxido de carbono e, desse modo, evitarem perdas de água por transpiração; trabalham depois arduamente de noite para captar e armazenar dióxido de carbono, essencial à fotossíntese no dia seguinte. Por causa deste mecanismo, diz quem provou que, de dia, as folhas são muito mais saborosas.

Segundo W.T. Stearn (Dictionary of plant names for gardeners), a designação do género começou por ser Mesembrianthemum, escolhida por Jacob Breyne em 1684. Esta palavra deriva dos termos gregos mesembria (meio-dia) e anthemum (flor), em alusão ao facto de as flores só abrirem quando o sol vai alto. Entretanto descobriram-se espécies de Mesembrianthemum em que a floração é noturna, e o nome tornou-se inapropriado. O botânico alemão Johann Dillenius (1684-1747) corrigiu a designação em 1719 com um rasgo de pragmatismo genial: substituiu o i por um y, e desse modo alterou a raiz da palavra e a informação que ela fornece. Mesembryanthemum refere-se a mesos (meio), embryon (embrião) e anthemum, aludindo correctamente à posição do ovário nas flores de todas as espécies deste género.

1 comentário :

bea disse...

Os mecanismos de sobrevivência das plantas são uma lição para os homens. Que, pela sua natureza, são bem mais desprotegidos.