4.3.05

Palmeira furtiva


Foto: pva 0501 - Phoenix canariensis na Rua da Madeira (Porto)

A Rua da Madeira, que vai da estação de São Bento à Praça da Batalha, é um lugar quase secreto no Porto: evitada pelos transeuntes usuais, corresponde, numa cota inferior, ao logradouro da Rua 31 de Janeiro; e, como as traseiras não se mostram às visitas, foi-se nela cristalizando, muito anos antes de se falar da crise da Baixa, um ar de abandono e marginalidade. A ironia é que agora a degradação alastrou à sala de visitas: na Rua 31 de Janeiro fecharam a livraria Bertrand e a discoteca Santo António, multiplicaram-se bazares de quinquilharias, e várias montras foram entaipadas. Visíveis intermitentemente entre os automóveis estacionados no passeio, uns inexplicáveis carris, onde nunca passaram nem hão-de passar eléctricos, descem da Batalha para falecer subitamente ao fundo da rua.

Subindo a Rua da Madeira desde S. Bento não a desvendamos por completo, pois o segredo que ela é oculta outros segredos: do lado esquerdo vigiam-nos prédios escalavrados em equilíbrio duvidoso; do direito acompanha-nos o alto paredão sobre o terminal ferroviário até que, acima da bocarra do túnel, outros prédios se interpõem na nossa vista. Que esconderão estes prédios? Que haverá nas traseiras das traseiras? Esta coisa precária e ternurenta: num exíguo torrão cravado no granito que forra o túnel, há um quintal com couves, uma palmeira e meia dúzia de arbustos. Ficar aqui, neste posto de vigia debruçado vertiginosamente sobre a estação e coroado por uma palmeira intemporal, a ver os comboios chegar e partir: que melhor imagem de uma nostalgia sem remédio?

4 comentários :

António Viriato disse...

Tem toda a razão. Já da última vez que lá passei, na Rua 31 de Janeiro, estranhei a falta da Bertrand e da Discoteca e achei o resto tudo muito lúgubre, com ar bastante decadente. Melhor fora que tivesse dado com a paisagem da rua de baixo, aqui bem ilustrada na foto. É insólita, mas tem algo de resistente, de quem não se quer render à ditadura urbana da construção permanente...

vitorsilva disse...

já tinha reparado nesse mini-quintal. o português tipico ainda aproveita todos os bocadinhos de terra para plantar umas couves e umas batata :)
em relação à 31 de janeiro, da ultima vez que por lá passei só ouvia o som de radiolas a tocar musicas de qualidade duvidosa vindas das janelas dos diversos predios +/- decadentes que por lá há...

Paulo Araújo disse...

Já agora digo que a foto foi tirada (com uma tele-objectiva) da rua do Loureiro, do outro lado da estação. Tenho pena de na mesma altura não ter apanhado toda a entrada do túnel com a palmeira debruçada em cima. Uma coisa é certa: quem cultiva aquelas couves não sofre de vertigens.

vitorsilva disse...

tenho ideia que dentro da estação também dá para ter uma visão da palmeira... e se bem me lembro agora que da torre dos clérigos (já que tens uma tele-objectiva) também se tinha uma visão interessante