2.12.05

O "abandono" do Jardim de São Lázaro

Em declarações recentes à RTP a propósito do projecto dos Aliados, o jornalista e historiador portuense Germano Silva, além de ter denunciado muito justamente que os jardins do Marquês e do Campo 24 de Agosto, maltratados pela Metro do Porto, ainda não foram restituídos à população, alertou para o estado do abandono do Jardim de São Lázaro, jardim romântico por excelência da cidade. Ora tal abandono, que é real, precisa de ser mais bem explicado. Os culpados dele não são os jardineiros da Câmara, pois os canteiros andam limpos e bem tratados, e as flores sazonais são substituídas com regularidade; é pois taxativo que, na acepção terrorista do termo, o jardim NÃO precisa de ser requalificado. O abandono é social: tirando os reformados para o seu jogo de sueca, os vagabundos, as prostitutas e algum turista desprevenido, pouca gente põe os pés no jardim. Há quem evite atravessá-lo mesmo para encurtar caminho.

Afinal o que se passa? Por que não vemos, nos dias de sol, famílias com as suas crianças a brincar no jardim, que é um espaço seguro, protegido como está por um gradeamento a toda a volta, e aprazível, com muitos bancos e muitas árvores de sombra? Há dois ou três anos construiu-se avantajado condomínio na esquina da Rua Duque de Loulé com a Avenida Rodrigues de Freitas, a dois passos do jardim. Quantos dos novos moradores o frequentam hoje? Quantos alguma vez lá entraram? (Quem ainda não o fez, que aceite o convite das camélias em flor para visitar o jardim quanto antes.)


Foto: pva 0411 - camélia no Jardim de São Lázaro

Não há tecido urbano, seja ele jardim, rua ou praça, que resista ao abandono; e somos nós, circulando de automóvel entre uma garagem e outra, evitando a sociabilidade do espaço público como quem foge ao contágio, que fazemos alastrar esse cancro.

O Porto precisa não só de mais mas também de melhores moradores: de gente que não se limite a ter o seu apartamento no Porto e a estacionar o seu carro numa garagem que por acaso é no Porto; de gente que ande a pé pelas ruas e que viva e faça viver os jardins da cidade.

5 comentários :

manueladlramos disse...

Tenho um tio que está reformado e que frequentou assiduamente o Jardim de S. Lázro durante anos para conviver e ..."jogar à sueca" mas deixou de o fazer por se sentir incomodado (ele e alguns do seus colegas) pela actividade pouco discreta das "meninas" naquela zona. Lembrei-me que este assunto já veio à baila n'A Baixa do Porto e deixo aqui os apontadores para dois dos comentários então publicados: um é o relato de alguém que pode presenciar o
espectáculo do local onde trabalha e no outro podemos ficar a saber quais os ilustres frequentadores do jardim em... 1854.

mdferreira disse...

Oh Paulo, pôs o dedo numa grande ferida ; a nossa gente é de facto muito alheada das coisas, não só não visita os seus locais (prefere os centros comerciais...), não só não colabora nas iniciativas que visam no fundo defender os seus interesses, como até muitas vezes ataca quem o faz.
Mas também as entidades públicas têm disso muita culpa; veja-se por exemplo o caso dos coretos que existem em muitos jardins: perderam a sua função já que não me lembro de ouvir falar em algum concerto dado el algum deles.

Eduardo disse...

Precisa o Porto e precisa a maior parte das cidades do país que eu conheço. As cidades portuguesas têm muitos locatários mas poucos cidadãos, com tudo o que isso implica em termos de qualidade geral dos espaços público (e não só).

ver disse...

acho que evitar as prostitutas e' como evitar as camelias. tanto umas como outras existem por razoes sobre as quais convem reflectir.

Ambas se oferecem ao outro com uma generosidade quase sem limites.

As camelias precisam de sol, chuva e boa terra.

As prostitutas precisam, como alias todos nos, de tecto, amor e comida.

Ainda ha' dois dias atras dizia o Sir David Attenborough na BBC: "animals are here to solve problems".

I think he is absolutely right. A vida e' em grande parte uma constante labuta para resolver problemas. Problemas que todos sem excepcao enfrentamos.

Entao talvez fosse bom, por exemplo, pensar a que alternativas poderiam as prostitutas recorrer para resolver o problema de arranjar tecto e comida todos os dias. Assim, as que quisessem deixar de se prostitutas podiam escolher.

Se escolhermos evitar, seja as camelias seja as prostitutas, devemos estar bem conscientes que entao tb estamos a escolher ignorar a liberdade.

Ser indiferente, o maior cancro que corroi actualmente o Portugues.

E no entanto, a solucao e' facil e esta' ao alcance de todos sem excepcao.


PS: Os interessados podem descobrir mais sobre a tal aventura do Sir David aqui: http://www.bbc.co.uk/sn/tvradio/programmes/lifeintheundergrowth/

Teófilo M. disse...

Talvez priveligiar as camélias em detrimento das meninas não fosse má ideia. Que tal mandar o pedido à autarquia?