10.11.06

O teste da rosa



«Digamos que você tem uma rosa. Uma só. Antes que eu continue, ela me interrompe: de que cor? Pensei na rosa, mas não pensei na cor. Cor-de-rosa, digo. Ela faz uma carinha de quem não aprova. Rosa cor-de-rosa, que falta de imaginação! Branca, me corrijo. Branca, não, ela corta. Vermelha. Tá bem. Uma rosa vermelha. Vermelhinha? Sim, vermelhíssima. Da cor de sangue vivo.

Digamos que você tem uma rosa, recomeço. É a única rosa que existe no mundo. A última? Não interessa. No caso é a única. E é sua. Digamos que você quer dar essa rosa a alguém. E se eu não quiser dar? Aí a história acaba. Continuo? Continua. Você tem que dar essa rosa a alguém. Uma pessoa só? Sim, uma só. Fui dar corda, a menina não pára de falar. Verdadeira matraca. Já quer saber por que tem de dar rosa. Se é dela e única, não vai dar a ninguém. Vai vender.

Mas a história é assim: é a única, a última rosa do mundo. E você tem que passar pra frente. Se não der, ela explode e queima a sua mão. Carinha de nojo, ela resmunga: rosa que explode e pega fogo, essa não. Finjo que não ouço e vou adiante. Você vai entregar essa rosa a quem mais a merece. A faladeira quer saber se a rosa é bonita. Lindíssima, já disse. Fresquinha. A última e mais bela rosa do mundo. Não, não pode guardar. Nem pode vender.

Novas tentativas de sair do script, mas eu fecho todas as portas. Não pode mudar. Não interessa quem inventou. É o teste da rosa. Existe desde o princípio do mundo, digo, convicto. E cale a boca, por favor. Mais um minuto e a rosa estoura na sua mão. Não é bomba, mas estoura. História inventada é assim. Rosa estoura e pronto. Você tem que dar a rosa pra alguém que a merece. A pessoa que você mais ama. Dona do seu coração. Vale, vale tudo. Gente grande, ou criança. Quem você quiser.

Não, não podem ser duas pessoas. Mesmo casadas, morando na mesma casa, não pode. Também não vale. Pétala por pétala, não. É a rosa inteira, perfumada. Uma beleza. Já disse que é a mais bonita do mundo. Nunca mais vai existir outra igual. E depressa, se não explode. Na sua mão, não no vaso. Fresquinha, com gotas de orvalho que brilham como pequenos sóis. Vamos logo, quem? A quem você dá essa rosa? Ela sorri, zombeteira, e me faz a pergunta fatal: você está crente que eu dou pra você, não está?»


Otto Lara Resende, Bom dia para nascer (1993)

5 comentários :

aldina disse...

(...)
"As rosas nascem na terra
E morrem direito ao céu"(...)
João Monge


Até sempre!

Flor disse...

Li este livro, coicidentemente a mais ou menos dois meses atrás. Faz parte do acervo da biblioteca de minha escola, e o título me chamou a atençao, mas além de mim, ninguém antes o leu, uma pena.

Convido a visitar meu blog, pois te fiz um convite, que podes ou nao aceitar, fica livre, ok?
Gosto demais de teu blog! Me inspirou a retornar meu amor pelas árvores de verdade, e hoje eu e meu marido pegamos tres mudas que tínhamos em vasos aqui em casa e saímos às pracinhas para plantar.

Abração!

PHYLOS disse...

Grande escritor, sem dúvida. Pena que está um pouco esquecido aqui no Brasil. Se puder, me visite. Abraços do Brasil.

PHYLOS disse...

Grande escritor, lamentavelmente um pouco esquecido. Boa escolha de texto. Abraços do Brasil.

Paulo Araújo disse...

Flor: muito obrigado pelo simpático convite, mas desta vez não vamos aceitar. É que ainda há pouco participámos num jogo semelhante, e não temos muito mais a contar sobre nós. Ou melhor: até teríamos, mas o blogue é sobre árvores e jardins e não sobre nós próprios.

Otto Lara Resende começou por ser para mim um personagem do Nelson Rodrigues, e só algum tempo depois percebi que se tratava de uma pessoa real e de um escritor de mão-cheia. A obra publicada dele é curta - alguns contos e novelas, entre elas avultando O braço direito - mas de um requinte linguístico difícil de igualar.