23.10.07

Jardim de memórias



Hydrocleys nymphoides / Sagittaria latifolia

Durante cerca de um ano o Jardim Botânico do Porto esteve a aformosear-se. Quando reabriu encontrámos um espaço mais arrumado, com novos percursos e alguns recantos associados às obras de Sophia de Mello Breyner Andresen e de Ruben A. Estes nichos, onde além das plantas há sugestões de leitura, formam um jardim de ler e propõem uma aventura que complementa com boa dose de fantasia as visitas científicas ou de carácter mais académico.

Um deles é inspirado no livro O rapaz de bronze, em cujas noites as flores conversam, passeiam, dançam e se enleiam em amizades - e, numa especial, de lua cheia, organizam uma festa como as que vêem acontecer entre pessoas. Neste jardim contado havia «um lago redondo sempre cheio de folhas. No centro do lago havia uma ilha muito pequena feita de pedregulhos e onde cresciam fetos. E no centro da ilha estava uma estátua que era um rapaz feito de bronze

No jardim real a decoração é outra. O rapaz de bronze é de facto uma senhora elegante que guia um repuxo airoso, a taça do chafariz não está coberta de fetos e o lago não tem só folhas. Com os pés na água flutuam duas espécies com flores de três pétalas: a papoila-de-água (Hydrocleys nymphoides), sul-americana, de folhas circulares semi-caducas e flores cor-de-limão; e a erva-seta (Sagittaria latifolia), da América tropical, de folha perene, triangular, com dois lóbulos, formato que a taxonomia relaciona com a nona constelação do Zodíaco.

Mas o jardim encantado ainda perdura. E no «lugar de suspiros» de Ruben A o vento insiste em espalhar perfumes e flores, num eterno eco do antigo convite para a festa.

2 comentários :

Paulo disse...

Os jardins que eu fantasiava na minha infância eram esses dos contos de Sophia. Foi bom recordá-los mais uma vez, trazidos aqui por quem gosta de contar uma boa história.

Anónimo disse...

Sabe o efeito deste lindo post? Sinto que me duplica a vida. Posso ser de novo menino com uma infância diferente da que tive onde este jardim e estes livros não estiveram; volto a ser adolescente, talvez menos zangado com o mundo; e reencontro-me adulto mais apreciador da natureza. Quando aqui venho, «saio sempre melhor. Nunca me aconteceu outro tanto ao dobrar a última página de livro de moral.» (de Camilo Castelo Branco, eu sei que reconhece)