22.8.09

Hipericão & hiperiquinho



Hypericum androsaemum L. (em cima) / Hypericum pulchrum L.

Hypericum é um género cosmopolita de cerca de 400 espécies. E a designação de grande parte delas, como as duas das fotos, termina com a letra L. Isso significa que foram nomeadas por Carl Linnaeus (1707-1778), o botânico sueco que as descreveu na obra Species plantarum (1753). Deste registo ilustrado de biodiversidade constam quase 6000 plantas, cada uma com a sua etiqueta gerada pela combinação de duas palavras, uma que designa o género e outra que, dentro de cada género, separa os vários elementos em espécies. Por exemplo, no género Hypericum, a espécie H. androsaemum destaca-se por ter seiva avermelhada (do grego andros, homem, e haima, sangue) e o H. pulchrum por ser especialmente harmonioso (como indica o latim pulchrum, bonito).

Este sistema de nomeação não foi invenção de Lineu. Ele emulava o modo como as pessoas escolhiam os seus próprios nomes e copiava na essência as denominações vernaculares. Mas Lineu reconheceu que, para bem de um esquema unificador em linguagem e utilização, tudo o que se deve pedir a um nome é que designe, não que descreva. 'Plantago foliis ovato-lanceolatis pubescentibus spica cylindrica scapo tereti' diz muito sobre a planta, mas não se guarda na memória como Plantago media.

Mas enquanto esta proposta de sistematização foi um sucesso, o método de a executar foi demolido à nascença. Lineu sugeriu que as semelhanças entre plantas se deveriam procurar na flor, nomeadamente no número e arranjo dos estames e carpelos.

'The actual petals of a flower contribute nothing to generation', he wrote, 'serving only as the bridal bed which the great Creator has so gloriously prepared, adorned with such precious bedcurtains, and perfumed with so many sweet scents, in order that the bridegroom and the bride may therein celebrate their nuptials with the greater solemnity.' *

Este projecto foi considerado indecoroso. O bispo de Carlisle, escandalizado, expressou o seu receio de que uma tal ideia melindrasse o pudor feminino e duvidou que os alunos virtuosos entendessem as analogias de Lineu. 'Who would have thought that bluebells, lilies and onions could be up to such immorality?'

Que indicadores de semelhança se deveriam então usar ao classificar as plantas? Conviria que a ciência não se servisse de propriedades sensíveis às condições ambientais, como as baseadas na morfologia. Quando a estrutura delicada dos grãos de pólen foi revelada ao microscópio, muitos pensaram que estava encontrada a solução. Mas outros persistiram em rotular por critérios avulsos, frequentemente por aspectos químicos, ou seja, pelo uso da planta. Porém, o enorme investimento financeiro no projecto de descodificação do genoma humano permitiu que as técnicas aqui envolvidas permeassem outras áreas. E desde 1980 a equipa da Molecular Systematic Section dos Royal Botanical Gardens em Kew analisa o ADN de plantas para desenhar uma «árvore da evolução» e descobrir relações de proximidade que de outro modo seria improvável reconhecer.

Flowerig plants evolved more than 150 million years ago; in 150 million years, plants that were once closely related can take completely separate evolutionary paths and end up looking as different as, say, roses and nettles. But the DNA of those two plants, the code that's been hidden within them for millions of years, shows that they actually belong to the same big order, the fabids (it also take in cannabis, cucumber, pear, strawberry (...)). The lotus should not be sitting with the water lily, which it seems so closely to resemble, but with plane trees and South African proteas. (...)

It is a monumental shift. But Professor Chase argues it is based on incontrovertible evidence. You can't reject it just because it's not what you expect. So, in Leiden, where in 1593 Clusius went to set up a botanic garden, the old order beds are being remade to reflect the new classification. (...) In the Oxford Botanic Garden, founded in 1621 so that 'learning may be improved', the order beds, last remade in 1884 according to Bentham and Hooker's rules, are once again being dug up and rearranged. A new order has begun.» *

* The naming of names, de Anna Pavord (Bloomsbury, 2005)

5 comentários :

Gi disse...

Isso é muito interessante. Eu já achei estranho quando me disseram que a alfarrobeira é uma leguminosa e não uma árvore, o que não irei agora descobrir com maior espanto?

Maria Carvalho disse...

Olá Gi. A alfarrobeira é uma leguminosa e uma árvore. Não é um legume na acepção vulgar, e enganadora, de «verdura que se come» (que inclui couves, alfaces, tomates, batatas, cenouras, ... que não são leguminosas), mas os frutos são vagens como os feijões (característica que distingue a família botânica Leguminosae).

Gi disse...

Obrigada pela correcção, Maria, já percebo melhor.

Lembra-se daquela minha planta enigmática? Não chegou a produzir bagas nenhumas.
Pode ser que o faça no próximo ano...

Maria Carvalho disse...

Olá, Gi. Nessa espécie há flores femininas e masculinas, nem sempre num mesmo pé. Se só tem uma planta, dificilmente verá nascer frutos. Pode mesmo dar-se o caso de, tendo várias, serem todas masculinas ou todas femininas - e para os frutos é preciso ter um casalinho. As flores masculinas e femininas diferem pouco na forma exterior (mas muito internamente): as primeiras não têm sépalas, o que é difícil de verificar, toda a inflorescência é pequenina e só há olhos para os tubos verdes de pétalas e os penachinhos de estames
esbranquiçados de cada flor.

Gi disse...

Então é isso, Maria, julgo que é só uma planta.
Obrigada pela explicação.