28.2.12

Portal da felicidade



Na avenida do Boavista, no Porto, mesmo à frente do Hospital Militar, um condutor imobilizado no trânsito pode aproveitar a espera para esticar o braço e colher uma laranja. Infelizmente, o trânsito citadino não induz ao relaxamento, e os condutores não têm o hábito de descolar os olhos dos semafóros para inspeccionar as árvores que desfilam no separador central da via. É pena. Mesmo que a laranja não seja comestível (quantas toxinas terá ela na sua composição?), o acto de colher a fruta da árvore recupera a nossa primordial e quase esquecida ligação às coisas vivas da terra. As laranjeiras não estão ali para enfeite nem para nos dar sombra. São laranjeiras pedagógicas. Encerram uma lição.

O automobilista é atingido, como São Paulo na estrada de Damasco, por uma revelação que o atordoa; só não cai porque está sentado e pôs cinto de segurança. Quando foi a última vez que se viu diante de uma galinha não depenada nem embalada em celofane? Sabe vagamente que as macieiras dão flores perfumadas, mas não se lembra de alguma vez as ter visto ou cheirado. E as margaridas e as papoilas, que pecados são os dele para estar impedido de ir ao campo admirá-las?

Há que mudar de vida, diz ele para consigo. Nada de muito radical, trata-se apenas de abrir um ou dois furos para respirar no manto de artificialidade que nos sufoca. Não é da Felicidade com F maiúsculo que vamos à procura, mas de algumas felicidades modestas e portáteis com assinalável efeito cumulativo.

Ajuda saber dar nome às plantas, pois quando elas saem do anonimato a paisagem ganha profundidade e ressonância. Nomeá-las pela primeira vez é inaugurar uma relação de amizade que se fortalece a cada reencontro. Ao dar-nos a conhecer os nomes das plantas (e as suas relações de parentesco, e os lugares onde vivem), o portal Flora-On, criado pela Sociedade Portuguesa de Botânica, multiplica a probabilidade de encontros felizes. Por isso o Flora-On é também o portal da felicidade.

Nota. Este texto é inspirado na intervenção de Carlos Aguiar aquando da sessão de apresentação do Flora-On, que decorreu na tarde de 25 de Fevereiro, no Museu Nacional de História Natural, à rua da Escola Politécnica, em Lisboa.

14 comentários :

Gi disse...

A interactividade do site parece muito interessante, vou testá-lo.
Obrigada, Paulo.
Espero que esteja tudo bem convosco.

Maria da Luz Borges disse...

Há muito tempo que não passava por cá. Não por falta de vontade, mas porque os afazeres são tantos que o tempo é pouco para viajar pela blogosfera. mas hoje cheguei mais cedo e decidi-me e mais uma vez gostei do post. também gostei do portal, mas para o comum mortal como eu que de plantas só conhece o que vai vendo, tenho que dizer que me agrada muito mais o "Dias com àrvores". É muito menos sofisticado e ensina-nos muita coisa. Já me estava a fazer falta passar por cá...
E agora tenho que vos dar uma péssima notícia: O link que aqui t~em para a sociedade portuguesa de botânica tem virus:(((. resultado, não cheguei a abrir o link:
Bom resto de semana
Luz - Pequenos Passos

Américo M.S. Pereira disse...

Pelo menos para mim é mais uma porta aberta...para a felicidade. Como amante amador de tudo o que é planta, tenho aí uma "ferramenta" extraordinária para tirar muitas dúvidas e continuar a aprender...
Parabéns e bem haja a todos os que tornaram possível este Flora-On.

Paulo Araújo disse...

Sim, Gi, está tudo bem connosco, obrigado.

Luz: obrigado também por comentar. (Só um reparo: abri a página da Sociedade Portuguesa de Botânica em vários computadores e não tive qualquer problema, nem apareceu aviso de vírus.)

Um comentário geral sobre o Flora-On. Mesmo quem pouco sabe de plantas pode experimentar os vários formatos de pesquisa - por exemplo pela cor da flor e pelo número de pétalas. Os já iniciados ou aficionados, como o Américo, hão-de gostar sobretudo de ir espreitar no "explorador taxonómico" as plantas das suas famílias favoritas. E depois hão-de querer verificar se alguém já viu certa planta e onde, e que mais havia por perto.

James disse...

Por favor nao se vao embora!! :) Adoro o vosso blog!

Catarina disse...

Gostei:)
Agora quando quiser ir ao campo e não puder sair da cidade (:S...) vou ao Flora-on... sempre ajuda...

Boa semana!

P.S. Tou com o James: não se vão embora!!! (se é q estão a pensar nisso..)

Carlos M. Silva disse...

Olá Paulo e Maria
Infelizmente não pude ir;fui a um evento que incluía ..caminhada! não pela avenida de laranjeiras mas outras mais selvagens;e o Flora-On já ajudou a pré-identificar o Narcissus que por lá fotografei e que vos enviei;e o Naturdata confirmou;era o que disseste!
Já experimentei o Flora-On apenas pelas famílias e acho-o bem rápido.
Sim,acho que o formato está bem feito,principalmente p/ os leigos como eu;outras funções como tipos de folha ainda não experimentei e decerto não usarei tanto mas ..;
Quanto a vós, sabem que aqui deste lado se suspira pelo cheiro de quaisquer 'laranjas' que nos possam mostrar.
Abraços
Carlos M. Silva

Anónimo disse...

As coisas que valem as felicidades, os pequenos prazeres. Parabéns aos botânicos interessados, aos meus amigos do DCA, aos curiosos como eu.
(e não se vão embora de nós!)
Abç da bettips

Rosa disse...

Caramba! Faz-nos sentir como uma criança numa loja de doces.

ZG disse...

Excelente post!!!

Exilado no Mundo disse...

Gostei deste post com os traços poéticos de um citadino que com elevada frequência respira o ar de montes e campos!

Exilado no Mundo disse...

Com um agradecimento aos amigos visados:
http://exiladonomundo.blogspot.com/2012/02/brassica-napus.html

Paulo Araújo disse...

Olá, Zé. Não retribuo a gentileza no lugar apropriado porque isso parece não ser permitido (além disso não tenho conta no Facebook). Se na Alemanha os campos são dourados então o futuro não pode ser tão mau. E caíram há pouco umas gotitas de chuva.

Cabo Raso disse...

Em minha opinião, e esta conta pouco, o texto é exemplar. No sabor e na pedagogia. As laranjeiras foram, depois de Manuel da Fonseca, o que mais me fascinou em Santiago do Cacém. E, no Porto, há dias notei, com desagrado, que as que existiam na placa central da R de Gonçalo Cristóvão, foram arrancadas. Uma equipa de paisagistas, só pode, deve ter na forja um arranjo idêntico ao do Marquês de Pombal, após obras do Metro. Parabéns por manterem e alimentarem o site. Não é possível imaginar dias sem árvores...