19.5.12

Orquídeas do Azibo


Dactylorhiza insularis (Sommier) Ó. Sánchez & Herrero

A um olhar desatento, esta orquídea amarela e pálida pode parecer a D. sulphurea (Link) Franco, mas, embora pequenas, as diferenças são decisivas para as separar em duas espécies. Note o leitor que a inflorescência da D. sulphurea é mais densa, cada flor tem um esporão longo e fininho virado para cima (o da D. insularis é mais curto e robusto e um pouco curvado para baixo) e, se ainda resiste alguma dúvida, veja as pintas vermelhas (que podem ser manchas) no labelo, que a D. sulphurea não tem (mas há registo de uma variedade siciliana inteiramente rubra).

Crê-se que a D. insularis teve origem numa hibridação entre a D. sambucina (L.) Soó e a D. romana (Sebast.) Soó, duas orquídeas de que não se conhecem populações portuguesas. Morfologicamente são todas semelhantes, mais salpico, menos matiz, mas a floração dos progenitores, que se inicia em Março, é em geral mais temporã. Toda a família aprecia a meia sombra, orlas de bosques e prados de montanha, sem demasiadas exigências quanto à acidez e secura do solo.

A D. insularis ocorre no sudoeste da Europa e é frequente em Espanha. Mas por cá é muito rara, tendo sido avistada apenas na Estremadura e em Trás-os-Montes. Nós tivemos o grato privilégio de acompanhar alguns membros da AOSP que, guiados por José Monteiro, visitaram há dias a albufeira do Azibo, em Macedo de Cavaleiros, para conhecer esta planta. Durante o passeio, houve quem se entusiasmasse com a presença de insectos em algumas inflorescências. É que esta orquídea, embora também se sirva da polinização, parece optar frequentemente por uma versão sofisticada de reprodução, a apomixia, que produz sementes viáveis em grande quantidade sem que a flor seja fecundada. Parecendo que não, este processo tem vantagens. Não permite a desejável variação genética que a polinização cruzada fomenta, mas garante que as mutações fortuitas favoráveis à espécie são salvaguardadas, criando-se assim, por vezes, variedades robustas que podem até tornar-se autónomas. E se o vento leva para muito longe uma semente que aí germina sem plantas companheiras por perto, a possibilidade de mesmo assim se reproduzir assegura a disseminação da espécie. Além disso, nem sempre os polinizadores adequados estão disponíveis, sobretudo para plantas que se refugiam em bosques demasiado sombrios que afugentam os bichos; ora, se ao fim de alguns dias a flor não é polinizada, recorre à reprodução assexuada, e a sua missão está cumprida.

3 comentários :

lis disse...

Lindas orquídeas Maria
Ando sempre aqui a espreitar essas preciosidades e esse blog maravilhoso.
deixo abraços e desejo de bons dias.

Carlos M. Silva disse...

Olá Maria e Paulo
Nem de propósito.
Fui cumprir a 'promessa do Azibo' que a ida ao PNPG havia adiado e dei com uma nova (para mim);e deve ser esta!Mas uma das que encontrei (só vi duas) estava bem ao sol,na encosta da berma do caminho e tinha 2 marcas vermelhas no Labellum: resultado de menos sombra/mais maturação?
Infelizmente uma que vira o ano transacto não a vi agora,pelo menos em flor face à localização em que a vira;acho que terá falhado a floração mas isto sou eu a especular!
É sempre um espanto voltar lá embora tudo (menos as orquídeas) está atrasado duas semanas;vê-se pelas gramíneas!
Cumprimentos
Carlos M. Silva

Anónimo disse...

As do Montejunto não apareceram no ano passado, mas este ano lá apareceu uma , já com a floração passada em 19 de Maio.
Duarte Marques