3.6.13

Licopódio para totós


Carum verticillatum (L.) W. D. J. Koch

Nos últimos anos visitámos assiduamente a serra de Arga em busca do licopódio-dos-brejos (Lycopodiella inundata), raridade botânica que alguns relatórios oficiais asseveram existir nas muitas turfeiras e prados higrófilos que preenchem as cumeadas da serra. Nunca o encontrámos, mas o afã da busca revelou-nos algumas plantas inesperadas e desvendou-nos, visto do alto, o litoral minhoto de Viana até Caminha. Como numa sopa de pedra, o ingrediente que motivou os passeios acabou por ficar esquecido, não no fundo da panela, mas algures num charco que não chegámos a inspeccionar. Mas não nos queixamos do insucesso, pois tudo o resto nos soube bem.

Sabendo da nossa demanda, houve uma planta, a alcaravia (Carum verticillatum) que muitas vezes se disfarçou da outra para poder rir à nossa custa. Pode parecer estranho que uma umbelífera, planta com flor, se assemelhe a uma espécie primitiva, aparentada com os fetos, que se reproduz por esporos, mas o Carum verticillatum, fora do período de floração que vai de Maio a Julho, fica reduzido a tufos de folhas rastejantes que lembram irresistivelmente as frondes do licopódio-dos-brejos. Essas folhas, que aparecem nas mesmas turfeiras onde deveria existir o licopódio, são compridas e estreitas, formadas por segmentos lineares dispostos em verticilos ao longo da ráquis. Uma observação atenta desfaz de imediato a confusão, pois tais segmentos são ramificados, ao contrário do que sucede no licopódio; e, neste último, os segmentos de última ordem (que aí na verdade são folhas) não são lineares nem estão exactamente agrupados em verticilos.

A haste floral do C. verticillatum, apesar do aspecto frágil, pode ultrapassar um metro de altura. Cada umbela é formada por 10 ou mais raios de 3 a 5 cm de comprimento; cada um desses raios, por sua vez, sustenta umbelas secundárias (chamadas umbélulas) com um número muito variável de flores, em geral entre 10 e 15.

Não fique a ideia de que, para nos fazer pirraça, a alcaravia se fez especialmente abundante na serra de Arga, pois a planta, embora mais frequente na metade norte do país, aparece com regularidade em prados húmidos ou encharcados do Minho ao Algarve. Globalmente, a sua área de distribuição abrange a Europa ocidental e o norte de África. Além do Carum verticillatum, ou alcaravia silvestre, há uma outra alcaravia por vezes cultivada para fins culinários ou medicinais, que leva o nome científico de Carum carvi e tem folhas de perfil triangular, muito diferentes das do C. verticillatum.

1 comentário :

bea disse...

Acho-a bonita. Mas sou parente directa dos totós.