6.8.13

Ilha prometida




Tolpis succulenta (Dryand.) Lowe

Talvez a ilha de Santa Maria quisesse fazer parte de outro arquipélago, ou pelo menos, pelo seu carácter híbrido, servir de transição entre os Açores e a Madeira. A fronteira entre os dois arquipélagos cortaria a ilha de norte a sul. A metade ocidental, árida e plana, irmã gémea da ilha de Porto Santo, ficaria a pertencer à Madeira; o verde impenitente da outra metade permaneceria sob administração açoriana. É verdade que a geografia resultaria algo confusa, com a metade açoriana mais perto da Madeira do que a metade madeirense, mas a tradição europeia dos enclaves e das fronteiras em ziguezague permitiria ultrapassar todas as dificuldades. E é bom assinalar que a distância entre Santa Maria e a ilha açoriana mais distante, o Corvo, é de 600 Km, não muito inferior aos 850 que medeiam entre Santa Maria e a Madeira.

Essa transferência parcial de soberania justifica-se também por razões botânicas. O Aichryson villosum é exemplo de uma planta que só é açoriana por ter posto o pé em Santa Maria, caso contrário seria um endemismo madeirense. E Santa Maria é a única ilha do arquipélago onde o Lotus azoricus é fácil de encontrar: sendo certo que se trata de um endemismo açoriano, não é menos verdade que é na Madeira e no Porto Santo que vivem os seus primos mais chegados. Até na vegetação invasora das arribas litorais, dominada pela piteira (Agave americana), Santa Maria se assemelha mais à Madeira do que às restantes ilhas açorianas.

A asterácea de hoje, de seu nome Tolpis succulenta, um endemismo açórico-madeirense, fornece mais uma achega a esta discussão. Habitante de falésias costeiras, referenciada em todas as ilhas dos Açores, sobrevive com dificuldade em todas elas, incapaz de competir com plantas mais exuberantes que ocupam o mesmo habitat. Dá-se mal em todas as ilhas, com uma excepção importante: em Santa Maria, a ilha prometida, ela vê-se por todo o lado, não já limitada à linha de costa mas penetrando pelo interior da ilha até cerca dos 500 metros de altitude. Também na Madeira, onde é conhecida como visco, é uma planta comum em escarpas rochosas, muros e taludes, desde o litoral até às montanhas do interior. A conclusão é que, tanto na Madeira como em Santa Maria, a Tolpis succulenta encontra o tipo de clima mediterrânico a que melhor se adapta, e que a sua presença em oito das nove ilhas açorianas se deve a um equívoco da natureza. A somar a tudo isto, existe a leituga (Tolpis macrorhiza), endemismo madeirense que, a menos de poucos detalhes, é uma cópia da T. succulenta.

A T. succulenta é uma planta perene, quase glabra, lenhosa na base, com caules muito ramificados e mais ou menos prostrados, dotados de látex. As folhas, que podem medir uns 10 cm de comprimento, são carnudas, elípticas ou lanceoladas, com margens inteiras ou dentadas; os capítulos florais são em geral solitários e nascem entre Junho e Setembro.

Não sendo tão vistosa como a agigantada T. azorica, a T. succulenta é ainda mais peculiar. Foi com emoção que a vimos, em Santa Maria, pintalgando de alto a baixo com um amarelo vivo as negras falésias junto ao porto.


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