17.1.14

Giesta das foices



Genista falcata Brot.

Regressamos aos tojos-que-afinal-não-são com uma espécie que, graças ao fraco talento do nosso povo para as minúcias da morfologia botânica, recebe igualmente o nome vernáculo de tojo-gadanho. Trata-se de um dos raros casos em que a contrafacção é preferível ao artigo original: estas leguminosas do género Genista, se bem que armadas de espinhos afiados, não têm a agressividade dos verdadeiros tojos, e de um modo geral comportam-se de modo menos expansionista, raramente formando matagais puros. No capítulo da beleza, a troca fica ela por ela: ganham as Genistas na folhagem e no aspecto menos desgrenhado, mas perdem na floração, que é menos abundante e duradoura do que no género Ulex.

A Genista falcata, que prefere matos abertos e orlas de carvalhais e tem a distinção de ser um endemismo da metade oeste da Península Ibérica, distingue-se sem dificuldade da G. triacanthos (que é glabra) pelas suas folhas simples, elípticas ou ovadas, peludas nas margens, e pela pilosidade evidente dos seus raminhos jovens. Em ambas as espécies, as flores dispõem-se em racimos terminais, mas as da G. falcata são maiores (14 mm de diâmetro contra 7 ou 8 na G. triacanthos) e surgem agrupadas em menor número. Para quem as vir já frutificadas tudo se torna simples: as vagens da G. triacanthos são quase circulares, enquanto que as da G. falcata (ver nesta página) são alongadas, com uma curvatura terminal lembrando uma foice.

Na verdade, tudo isto foi explicado há mais de 210 anos, com grande rigor e riqueza de detalhes, por Félix de Avelar Brotero (1744-1828), que publicou em 1800, no seu Phytographia Lusitaniae Selectior, e a partir de exemplares encontrados nos arredores de Coimbra, a primeira descrição das duas espécies. Mesmo tendo fracas luzes de latim, o leitor só ganhará em consultar, no portal da Biblioteca Digital de Botânica da Universidade de Coimbra, esta obra do grande precursor das ciências botânicas em Portugal.

3 comentários :

Rafael Carvalho disse...

A Genista falcata ocorre naturalmente aqui na zona. Curiosamente ainda não a tenho no meu "jardim autóctone".
Desconhecia tratar-se de um endemismo do Oeste Ibérico, o que para mim lhe confere um acrescido valor.
Será a próxima aquisição.
Cumprimentos.

bea disse...

"as flores dispõem-se em racimos terminais, mas as da G. falcata são maiores (14 mm de diâmetro contra 7 ou 8 na G. falcata)"

fui eu que não entendi ou existe mesmo uma troca involuntária nos nomes?

é um arbusto hospitaleiro, mau grado os espinhos

Paulo Araújo disse...

Obrigado pelo comentário, Rafael. A Genista falcata parece mesmo ser frequente no Douro, e algumas das fotos até foram tiradas aí. Sem dúvida que o estatuto de endemismo ibérico torna quase obrigatória a sua presença num jardim autóctone tão exemplar.

Obrigado pelo reparo, Bea. Já corrigi o lapso.