3.7.04

Rés-do-céu

«Além de tudo, para mim, a garbosa palmeira revela a evidência flagrante de leis naturais, o que representa sempre uma atracção. É que vejo na sua copa, inscrita numa circunferência, regular como um mostrador, o símbolo da vida humana, que aí se desenha claramente quase à maneira de diagrama. As últimas folhas, as mais novas, irrompem do centro do disco, que é o núcleo vital da planta, e lançam-se com ímpeto em direitura para o alto, como se quisessem conquistar o espaço azul. Mas em tanto estes sucessivos rebentos se desenvolvem a pouco e pouco, na mesma medida e ao peso das suas próprias ambições frustradas vão-se as folhas inclinando para os lados e encurvando, à semelhança e concordância com as outras folhas já mais velhas, até que, sem sairem do âmbito circular - imagem do globo em que mourejamos -, de tanto ceder e abdicar acabam a roda apontando cada vez mais para terra, onde por fim se vão precipitar em plena decadência. Assim se perfaz e completa o ciclo perfeito (...), enquanto do alto da árvore não cessam de brotar renovados rebentos, confirmando dia a dia a continuidade que encerra o mistério do nosso destino.»
Raul Lino, Não é artista quem quer, 1963

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