19.10.04

Parente querido

«O cajueiro já devia ser velho quando nasci. Ele vive nas mais antigas recordações de minha infância: belo, imenso, no alto do morro, atrás de casa. Agora vem uma carta dizendo que ele caiu.

(...) Eu me lembro dos pés de pinha, do cajá-manga, da grande touceira de espadas-de-são-jorge e da alta saboneteira que era nossa alegria e a cobiça de toda a meninada do bairro porque fornecia centenas de bolas pretas para o jogo de gude. Lembro-me da tamareira, e de tantos arbustos e folhagens coloridas, lembro-me da parreira que cobria o caramanchão, e dos canteiros de flores humildes, "beijos", violetas. Tudo sumira; mas o grande pé de fruta-pão ao lado da casa e o imenso cajueiro lá no alto eram como árvores sagradas protegendo a família. Cada menino que ia crescendo ia aprendendo o jeito do seu tronco, a cica de seu fruto, o lugar melhor para apoiar o pé e subir pelo cajueiro acima, ver de lá o telhado das casas do outro lado e os morros além, sentir o leve balanceio na brisa da tarde.

No último verão ainda o vi; estava como sempre carregado de frutos amarelos, trêmulo de sanhaços. Chovera; mas assim mesmo fiz questão de que Carybé subisse o morro para vê-lo de perto, como quem apresenta a um amigo de outras terras um parente muito querido.

A carta de minha irmã mais moça diz que ele caiu numa tarde de ventania, num fragor tremendo pela ribanceira; e caiu meio de lado, como se não quisesse quebrar o telhado de nossa velha casa.»

Rubem Braga, A cidade e a roça (1954)

4 comentários :

Anónimo disse...

Porque é que este texto me provoca uma tristeza imensa?
Onde estão as árvores das minha infância? Há quanto tempo as não vejo? Revê-las-ei alguma vez? Será que ainda existem?

António Viriato disse...

Belo texto. A sua singeleza dá força ao sentimento que dele se desprende. Felizes os que conseguem dizer tanto em tão sóbrio texto, ainda mais extraordinário, falando quase só de árvores e das relações que alguns de nós, humanos, com elas estabelecem, num perfeito entendimento espiritual.

Anónimo disse...

Que delícia esste texto, viagem no passado, na minha infância. Sentí o cheiro da comida da minha vóvó, e do banho de chuva delicioso que eu gostava de tomar...

Anónimo disse...

Que belo texto!!! quantos cajueiros deixaos ,para trás com o passar dos anos... Gostaría de reencontra-los...