14.12.05

Um livro e um lugar

Além das árvores, também nos sustentam as palavras de quem as vive. Os lugares fazem-se não só daquilo que os sentidos captam, mas também das memórias que neles se entretecem e se cristalizam em palavras. Memórias partilhadas ou pessoais, palavras públicas ou privadas, prosa ou verso, livro ou recorte de jornal: tudo isso reveste as árvores com uma persistência que nenhum Outono pode quebrar.

A Assírio & Alvim acaba de publicar Porto de Abrigo, colecção de poemas de Jorge Sousa Braga que vem enriquecer os jardins, as árvores e os muros da cidade com novas palavras que ficarão a pertencer-lhes para sempre. Como estas:

JARDIM DA CORDOARIA

Não sei se ainda há plátanos no Jardim
da Cordoaria nem se as couves traçadas

juncam ainda as margens do lago.
O que sei é que um plátano cresceu

dentro de mim e a comichão
que sinto são as raízes e as folhas

que se querem libertar.




Fotos: pva - plátanos da Cordoaria em Abril e Dezembro de 2005

(Não sei que é feito das couves, mas os plátanos ainda lá estão, rijos e para durar. Contudo, a perspectiva da mais famosa alameda do Porto foi estupidamente adulterada por quem teve a ideia de nela fixar, bem a meio, duas tabelas de basquete. É de bradar aos céus: não havia, no jardim ou nas proximidades, outro lugar para pôr semelhantes trambolhos?)

7 comentários :

Rita disse...

Realmente, é mesmo de ficar com a boca aberta!!!!!

Anónimo disse...

Juntar ignorância e atrevimento às vezes dá nisto. Octávio Lima (ondas3.blogs.sapo.pt)

cris(nuvemlilas) disse...

É muito triste mesmo...já nesta semana o assunto - inevitável - apareceu em outro blog do Porto.

A indignação não vem do apego nem do tradicionalismo...sou arquitecta, pôxa, basta pensar: é o "Centro" da Cidade do Porto...é turístico, é também financeiro...

Cada espaço dentro de uma cidade é criado e/ou modificado em função do que ele representa e de como é utilizado, quem passa,quem Permanece...

E quanto mais "Centro" menos "individual" pode ser...é o significado de urbanismo, falo - na boa - porque não sou nenhuma catedrática,nem alguma figura de renome internacional sacudindo diplomas.
Gosto do trabalho dos arquitectos, mas parece-me "populucho" demais ou político demais...Dá mêdo, uma sensação imensa de impotência.

(me permito gírias para facilitar a compreensão do que sinto, não levem a mal)

APOBO disse...

Se não visse não acreditava!... É de pasmar. Quem terá sido a mente brilhante que conjecturou tal monumento? De certeza que não é uma "instalação" artística, cuja finalidade é causar espanto e indignação? Parece uma anedota (o que, afinal, está cada vez mais de acordo com o país...)! Profundamente lamentável!

inquieta disse...

Que bonito! Não temos , aqui no Brasil, jardins assim. Mas uma coisa temos e com fartura. Idiotas como esses que enfiou essa rede de basquete em meio a alameda.
É uma lástima.
Um abraço solidário.
Vera do Val

L disse...

infelizmente, não é só no Jardim da Cordoaria. Antes das eleições locais, foram colocados cestos de basket em diversos sítios da cidade. Uma medida nada populista - talvez para incentivar a prática de desporto? claro que ninguém da câmara deve ter jogado basket alguma vez, senão saberiam que o pavimento em terra batida não dá para driblar a bola...
mas ainda assim, a minha tabela de basket preferida é uma localizada na zona da Ribeira, um pouco antes de chegar à Alfândega: não só o pavimento (de pedra) impossibilita o jogo como não há espaço para jogar!

a única tabela que vi a ser utilizada é a localizada ao lado do edifício transparente/perto do castelo do queijo.

Anónimo disse...

Sinceramente, a cada um as suas opiniões.

Já jogei na Cordoaria basket, e acima de tudo no Jardim do Calem. Considero algo muito positivos as tabelas, e acho que todos os sitios da cidade devem ser passíveis de coisas que permitam a interacção.

Claro que concordo que a da Ribeira é imbecil... é totalmente impossivel jogar lá. Mas acho que a ideia de por o que eles chamam recantos desportivos foi uma boa ideia.