22.6.06

CCDRN: o gosto de proibir

Se há tique que caracterize os responsáveis pelos organismos públicos em Portugal é a tentação de privatizar em seu proveito aquilo que deveria estar à disposição de todos; a isso se acrescenta a convicção, partilhada pelos índios das histórias aos quadradinhos, de que quem fotografa o que é nosso nos está a roubar um pedaço da alma. Assim, a solene proibição de fotografar (mesmo sem flash) é o mínimo que podemos esperar em museu, cemitério ou mesmo algum inocente jardim à guarda de tão ciosos zeladores.

Não é pois inesperado que, no cemitério de Agramonte, na Casa de Ramalde ou na sede da CCDRN (à rua da Rainha D. Estefânia), qualquer visitante munido de equipamento fotográfico seja de imediato travado pelos vigilantes de serviço. Compreende-se, pois os sujeitos cumprem ordens e são pagos para defenderem a alma dos lugares. Mas, desde que abdiquemos de usar o equipamento ofensivo, podemos (ou podíamos) passear à vontade nesses locais; olhá-los não nos é (ou era) interdito.

Hoje, porém, tive conhecimento de uma novidade. O guarda de plantão impediu-me de visitar o jardim da CCDRN, o que é na verdade estranho, pois na sede desse organismo funciona, entre outros serviços abertos ao público, uma biblioteca à qual o acesso se faz pelo jardim. Mas eu, admito-o, não me dirigia à biblioteca: queria apenas ir ao jardim, observar de perto uma árvore em flor que avistei por cima do muro. Não o pude fazer, pois agora o guarda tem instruções para impedir que os visitantes passeiem no jardim.

Talvez a CCDRN tenha vergonha em mostrar o histórico jardim que transformou em caótico parque de estacionamento; talvez o guarda não esteja habituado a respeitar quem se dirija ao portão pelo seu pé em vez de o fazer ao volante de um automóvel; talvez os donos desses automóveis estejam preocupados com os danos que um visitante mal intencionado possa causar aos seus queridos quadrúpedes. Enfim, faço por compreender as razões da CCDRN, mas não posso aceitar que privatize, para (mau) uso exclusivo dos seus funcionários e dirigentes, um jardim que é propriedade pública e referência patrimonial da cidade.

(A mesma tentação privatizadora é notória no jardim da rua de António Cardoso, onde funcionou a Casa das Artes: desde que a CCDRN ocupou a antiga casa, metade do jardim está vedada ao público, e a outra metade só é acessível pela rua de Ruben A.)

4 comentários :

Rui Manuel disse...

Meu caro,
Pode ter a certeza absoluta, que quem quer que seja o(a) responsável por tão doutas proibições públicas, é cãozinho manso e solícito, se a colocarem à frente de uma câmera de televisão. Fica doce e subitamente humana, pode crer. Fenómenos da tecnologia...

Carla de Elsinore disse...

Paulo,
se quiser ter o incómodo de pedir , oficialmente, explicações à CCDRN, talvez se possa fazer alguma coisa.

Paulo Araújo disse...

Carla,
A sua sugestão é boa e penso fazer isso mesmo. Mas antes disso uma pessoa minha conhecida ainda fará nova tentativa para visitar o jardim da CCDRN como cidadã anónima.

Jose Antunes disse...

Bom dia


Sou jornalista e estou a escrever um artigo sobre a proibição de fotografar em jardins e espaços públicos. Gostaria de saber se posso usar alguns dos dados do v/ site, bem como trocar algumas impressões. O meu e-mail é jose-antunes@mail.telepac.pt. Tenho, como calculam, alguma urgência.