30.10.06

Do outro lado

One gift the fairies gave me (three
They commonly bestowed of yore):
The love of books, the golden key
That opens the enchanted door.

Andrew Lang (1844-1912) in Ballade of the Bookworm

Vivemos hoje num mundo de portas fechadas; portas cada vez mais fortes, com miolo de aço, fechaduras de quatro voltas e sete trancas, cordão de segurança e óculo para avaliar instrusos. O tema da porta misteriosa sempre foi terreno literário fértil, mas as portas fechadas de hoje não têm qualquer mistério: escondem medrosos como nós.

E que faz a imaginação quando encontra uma abertura prosaica, sem porta e sem resguardo, que não leva a nenhum lugar de encanto? Isso é o que se vê à luz crua do dia, mas quem sabe o que aparece mais tarde, quando nos fechamos em casa? Há lugares mágicos que já não são para o nosso tempo. Uma Alice moderna nunca seguiria o Coelho Branco pela toca abaixo, pois os pais, mesmo deixando-a brincar à beira-rio com a irmã, nem por um instante a perderiam de vista.



Quem, a hora propícia, se encontrar na margem direita do Tâmega, em Amarante, com a única banda sonora do rio e dos bichos nocturnos, não deixe de seguir a criatura furtiva que desliza para dentro do plátano. Depois conte-nos o que viu.

2 comentários :

Ver disse...

Amarante é uma terra mágica, a minha bisavó era vendedora de flores em Amarante, não me admira nada que seja lá a entrada para o país das maravilhas.Até porque por aqui já está fechada.
http://cheirar.blogspot.com/2006/10/rvores-que-contam-histrias-2.html

Paulo Araújo disse...

Ver: espero que ao plátano de Amarante nunca fechem a entrada, como fizeram à árvore da sua foto. Não só por causa da Alice, mas também porque os tijolos e o cimento não são a prótese ideal para um organismo vivo (vê-se bem como a árvore já tem grandes queimaduras).