11.3.13

Erva de bem olhar



Scrophularia grandiflora DC.

Um dos nomes que em Portugal se dá às plantas do género Scrophularia é erva-do-mau-olhado. Por falta de um bruxo tradicional a que possamos recorrer, desconhecemos se tais ervas provocam mau-olhado ou se são um remédio contra ele. Dúvida porém irrelevante numa época em que tais crendices antigas foram substituídas por outras mais cosmopolitas como a astrologia e o tarot. E a escrofulária de hoje, associada ou não ao mau-olhado em tempos que já lá vão, merece ser olhada com uma atenção respeitosa, visto tratar-se de um endemismo português de distribuição restrita.

A Scrophularia grandiflora, uma planta vivaz e peluda que atinge 1,8 m de altura, existe apenas na província da Beira Litoral, onde está confinada a um raio de 40 a 50 Km em redor de Coimbra. Não vive em lugares ameaçados nem é especialmente rara no território que lhe calhou ocupar. É uma planta estradeira, e qualquer talude onde as brigadas de limpeza não actuem com excessivo zelo lhe serve de refúgio. Em Coimbra, quem percorra a circular interna durante os meses de Abril e Maio não deixará de a ver, altaneira e florida, enfeitando esporadicamente as bermas da via. E na serra do Açor, limite oriental da sua distribuição, aparece em grande quantidade junto à ponte velha de Coja, mas também na estrada para Benfeita e na Mata da Margaraça. A sua preferência por habitats artificiais ou mesmo degradados suscita a pergunta que o Carlos Aguiar aqui pôs há tempos: onde estava, qual era o habitat da S. grandiflora antes de o Homem se apoderar da paisagem, antes da generalização do modo de produção neolítico? Se a mesma dúvida se coloca para todas as plantas nitrófilas ou ruderais, o caso da S. grandiflora é peculiar porque, ao contrário da generalidade das suas colegas de má vida, não foi capaz de aproveitar a boleia humana para se disseminar em larga escala.

O género Scrophularia, tão prolífero em espécies (cerca de 200 em todo o mundo, mais de 20 na Península Ibérica), está sujeito a oscilações taxonómicas periódicas, e só em 1993, com A. Ortega & J. Ortega (autores do artigo Revisíon del género Scrophularia L. (Scrophulariaceae) en la Península Ibérica e Islas Baleares), ficou de vez decidido ser a S. grandiflora um endemismo lusitano. Curiosamente, o autor do nome, o botânico suiço Augustin Pyrame de Candolle (1778–1841), que nunca viu a planta na natureza, supôs, devido talvez a uma troca de etiquetas no material de herbário, que ela seria originária da América do Sul.

3 comentários :

bea disse...

Pelo vigor em florescer nos baldios, a escrufulária merece o aplauso; além disso não tem medo de crescer, aventura-se. mas as floritas...pobreza.

Carlos M. Silva disse...

Olá Paulo

Só tenho duas espécies cá por casa mas desde que as descobri (já em 2009?) fiquei fascinado com as flores e cheguei mesmo a transplantar para mais perto de casa, e até a recolher sementes. Mas de facto, sendo visitáveis por alguns insectos nunca cheguei a ver um que fosse a lá introduzir-se.
Ao ver aqui estas vossas belas fotografias, reparei numa pequena vespa que nunca fotografei embora desconfie que,é possível, já lhes tenha visto/fotografado o pequeno ninho de lama,normalmente em ervas ou agulhas de pinheiro.E por que a curiosidade leva-me sempre mais além ..deixo aqui a provável família e género daquela pequena vespa (claro ..à leigo): EUMENIDAE Fam., Eumenes sp., creio!
Estou a ver que terei que estar mais atento.

Cumprimentos
Carlos M. Silva

rui faria disse...

Olá, engraçado, vou a ler com o teu mais recente post, e clico no redirecionamento que puseste no posto do mercurio, porque vi esta planta a semana passada na berma de um caminho na subida para a serra da boa viagem, junto a Quiaios. É uma planta que logo se destaca das que costumo ver aqui pelo norte. Cumps