6.10.15

À espera do degelo



Polystichum lonchitis (L.) Roth

Sabemos que a Terra é (aproximadamente) esférica, mas às vezes esquecemo-nos de fazer uso prático desse conhecimento. Por exemplo, o caminho mais curto entre dois lugares situados à mesma latitude não é, em geral, ao longo de um paralelo, a menos que eles estejam perto do equador; e quanto mais subimos para norte mais se estreita a distância entre os continentes. Se partirmos da Península Ibérica e sobrevoarmos o Atlântico, a América parece-nos distante, mas do norte da Suécia ao Alasca passando pelo Pólo Norte é só um pulinho. Nas suas migrações, as plantas há muito que aprenderam a tirar partido dessas circunstâncias geográficas. As espécies vegetais do hemisfério norte que gostam do frio não raro têm uma distribuição circumboreal, ocupando um anel à volta do Árctico que abrange três continentes. Não é um feito extraordinário, pois nessas geladas latitudes os continentes encostam-se uns aos outros como que para se resguardarem do frio. Muito menos numerosas são as espécies de climas temperados que surgem naturalmente nos dois lados do Atlântico.

O Polystichum lonchitis, que gosta de cumes rochosos a grandes altitudes e deve o epíteto lonchitis às folhas em formato de lança, fornece um exemplo paradigmático dessas migrações através do gelo, distribuindo-se desde o Canadá, norte dos EUA e Gronelândia até à Islândia, Suécia e montes Urais. Tendo entrado pelo norte, não desdenha contudo descer até ao sul, aproveitando os lugares onde a neve cai regularmente, como as montanhas da Cantábria e a serra Nevada em Espanha, ou as montanhas do Atlas em Marrocos. Por contraste, o seu congénere P. setiferum, que vive em bosques e desgosta de temperaturas negativas, revelou-se incapaz de transpor as lonjuras do Atlântico, estando confinado à Europa, à região mediterrânica e à Macaronésia.

As nossas montanhas são baixas, demasiado sujeitas à influência moderadora do oceano, com uma neve que nem sempre cai a contento dos esquiadores. Por falta de resposta cabal ao caderno de encargos apresentado, o Polystichum lonchitis preferiu não se instalar no nosso país (se isso serve de consolo, também não quis a Galiza). A fentanha (Polystichum setiferum) é assim a única espécie do género em Portugal continental. Além das preferências ecológicas distintas, os dois fetos têm perfis muito diferentes: o P. setiferum tem folhas largas e grandes (até 1 m de comprimento), duas vezes divididas, enquanto que o P. lonchitis tem folhas estreitas e pequenas (de uns 20 a 40 cm de comprimento), coriáceas, divididas apenas uma vez. O parentesco entre os dois é porém indesmentível, pois em ambos as divisões de última ordem das frondes têm quase a mesma forma, como se pode ver comparando as fotos aí em cima com esta outra. Um outro feto que apresenta arquitectura semelhante, e de facto parece uma versão a traço grosso do Polystichum lonchitis, é o asiático Cyrtomium falcatum, que já se chamou Polystichum falcatum e está naturalizado nos Açores, onde é um invasor temível.


Pico Tres Mares, Cantábria

6 comentários :

Fátima Isabel disse...

Sem esquecer o Polystichum drepanum e o Polystichum falcinellum duas endémicas da Madeira.

Paulo Araújo disse...

Obrigado pelo reparo. Já corrigi o texto. De facto conhecemos mal a flora da Madeira, e daí estes deslizes.

bea disse...

Espanta-me que as plantas consigam travessias tão difíceis. Que a proximidade dos continentes junto do pólo norte não altera a temperatura. A natureza tem prodígios inúmeros. Mesmo.

ZG disse...

Belo feto e extraordinária paisagem cantábrica!!

Fátima Isabel disse...

Se calhar está na hora de nos fazerem uma visita e começarem a publicar textos sobre o arquipélago da Madeira. Tenho a certeza que também encontram assuntos interessantes. Ficamos ansiosamente à espera.

ZG disse...

Bem visto - a Madeira também é bem fixe!!