22.10.04

Jacinto e os nomes das árvores...

«E o que esse Príncipe, nesta tarde, me esfalfou! Farejava, com uma curiosidade insaciável, todos os recantos da serra! Galgava os cabeços correndo, como na esperança de descobrir lá do alto os esplendores nunca contemplados de um mundo inédito. E o seu tormento era não conhecer os nomes das árvo­res, da mais rasteira planta brotando das fendas de um socalco... Constantemente me folheava como a um Dicionário Botânico.
- Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais ilustres da Europa, tenho trinta mil volumes, e não sei se aquele senhor além é um amieiro ou um sobreiro...
-É um azinheiro, Jacinto.
Já a tarde caía quando recolhemos muito lentamente.
E toda essa adorável paz do céu, realmente celestial, e dos campos, onde cada folhinha conservava uma quietação contem­plativa, na luz docemente desmaiada, pousando sobre as coisas com um liso e leve afago, penetrava tão profundamente Jacinto, que eu o senti, no silêncio em que caíramos, suspirar de puro alívio.
-Tu dizes que na Natureza não há pensamento...
-Outra vez! Olha que maçada! Eu...»

Eça de Queiroz- A Cidade e as Serras (1901), Cap. IX, p. 243
(Ler cont. no site da BN sobre o autor.)

3 comentários :

Anónimo disse...

betania comenta:

Amigo, senti-me em casa, ou melhor, em família porque meu vizavô era Jacinto e todos nós ainda somos conhecidos pelos "Jacintos". E é uma honra para mim ser
"Jacinta" porque simbolo de carácter e bravura.

Gosto muito de passar por "sitios com árvores" porque
amenizam o ambiente e a s nossas almas também.

Beijinhos

António Viriato disse...

O desconforto de Jacinto, nos campos, nas serras, traduzia, já há mais de cem anos, o sentimento de divórcio, que Eça muito bem percebia, do homem absurdamente culto com a Natureza, não fosse este juízo uma contradição insanável.

De então para cá, o fosso não parou de crescer e isso talvez explique toda a nostalgia que sentimos, perante um mundo vegetal que deixámos de conhecer, mas que, estranhamente, continua a fascinar-nos.

Por esta simples, mas tão importante razão, se torna tão apreciado um blogue como o «Dias com Árvores», que mais uma vez aqui louvo.

Anónimo disse...

não percebo patavina de nada...