24.12.04

Madeiro do Natal

«Noite geralmente fria, árvores descarnadas a erguerem os braços para o céu, campos desertos, caminhos sem viandantes (a não ser os que à última hora recolhem a pátrios lares), a véspera de Natal tem não sei quê de unção, de poesia, que a todos, cristãos ou livres-pensadores, crentes ou ateus, faz reunir, vindo das maiores distâncias, no conchego e convívio santo da família.
E o nosso povo, mantedor fiel de velhas e lindas tradições, vai ainda hoje, para honra e louvor do Menino Jesus, e para que os pobrezinhos tenham onde se aquecer, colocar no adro da Igreja grandes troncos de árvores que arderão, e morrerão em vivo braseiro, durante o ciclo do Natal.
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Em Castelo-Branco, como em grande número de povoações da Beira-Baixa, são os rapazes que, aproveitando o primeiro carro de de bois ou de muares que se lhes depara na via pública, fazem os transportes de madeiros.
Em Idanha-a-Nova, são as mordomias de São João, do Espírito Santo, etc. que, enfeitando os carros dos bois com grandes fitas multicolores, entre vivas aos santos da sua devoção, e acompanhados de uma grande caldeira de cobre ou de uma cântara cheia de vinho de onde todos bebem por um copo de lata ou de esmalte com asa, vão carregar grandes troncos de velhas árvores que hão-de arder no adro da Igreja ou junto das das capelas daqueles santos.
Em Castelo-Branco e em Idanha-a-Nova, como em todas as localidades que pertencem ao bispado de Portalegre, durante toda a noite de Natal, especialmente à entrada e saída da missa da meia-noite, ou "missa do galo", não cessa a romaria ao madeiro, sucedendo-se uns aos outros, alegres grupos a entoar, com a canção que se segue, hosanas ao Salvador
» (Segue-se a transcrição da conhecida canção em que uma das quadras se inicia com o verso "Entrai pastores entrai..." ) DIAS, Jaime Lopes - Etnografia da Beira. Câmara Municipal de Idanha-a-Nova : 1991 *, vol 1 pp.155-6
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«Em Louriçal do Campo queima-se na noite de Natal, o madeiro que segundo velho costume, deve ser roubado.
Para que se não saiba quem o rouba, as vacas e os bois que puxam o carro que o transporta vão cobertos com mantas, e os homens encapuçados. Ao atravessar a povoação, os homens carregam-se de pedras para, se alguém aparecer às janelas, o apedrejarem e obrigarem a recolher-se.» Id., vol 5, p. 53
*Edição facsimilada da edição de 1944 -Lisboa: Torres &C.ta- Livraria Ferin, 11 vols.
(nota 1: a referência ao autor das notáveis xilogravuras que ilustram esta obra ficará para depois já que não encontro o local onde registei o seu nome... ; nota 2: o jornal Público de hoje também refere a tradição associada à queima do Madeiro)

2 comentários :

Anónimo disse...

Foi com gosto que li este texto sobre o Madeiro de Natal. Muitos dos meus natais foram passados em Idanha-a-Nova. È tradição antes da Missa do Galo fazer a ronda pelos adros de todas as igrejas existentes na vila para ver os madeiros. São muito úteis para as pessoas se aquecerem um pouco, porque na região, nesta altura do ano, as noites são muito frias e com geadas. Daí a estrofe da canção popular de Natal originaria desta região "Ó meu Menino Jesus logo houvereis de nascer em noite de caramelo". Falta apenas dizer que
que os madeiros são sobreiros. AMAG

bea disse...

Na minha terra o o madeiro do Natal, que ardia até ao ano novo, estava sempre no largo da taberna e era, pouco poeticamente, encargo do taberneiro.
Apreciei as diversas as tradições.Obrigada.