26.2.05

País sem memória


Fotos: mdlramos 0502

Na nossa recente ida a Arcos de Valdevez conversámos com uma senhora a quem um vizinho exige que derrube uma oliveira multicentenária, para que certo veículo possa circular no estreito caminho que divide a propriedade da senhora da do vizinho. No caminho passam sem dificuldade automóveis, tractores e ambulâncias - mas não aquele preciso veículo que o vizinho insiste em fazer lá passar. A senhora, amiga e proprietária da oliveira, opõe-se firmememente ao capricho do vizinho e não abdica do seu direito em manter a árvore de pé; o vizinho, apoiado pela junta de freguesia, move influências, insinua ameaças, barafusta nos jornais. A imprensa local, já se sabe, é defensora do «progresso»: um parágrafo venenoso num jornal concelhio apela à compreensão da proprietária, apresentando o derrube da árvore, e consequente embelezamento (?) do caminho, como um dos melhoramentos em que a junta está empenhada.

Resta acrescentar que esta heróica opositora do «progresso» - entendido no seu significado português de fazer obra, importante ou não, desprezando património e ambiente - é uma viúva de oitenta anos. Apesar de viver sozinha, não é de modo nenhum uma velha senhora indefesa, pois a família, toda ela emigrada, com quem mantém assíduo contacto, é unânime em secundar a sua posição; e o seu advogado assevera-lhe que, num caso como este, a razão e o direito estão do seu lado. Acima de tudo, é uma senhora lúcida, com uma vitalidade física e mental admirável, que não se deixa vergar nem confundir pelo coro daqueles que, querendo mal à oliveira, é também a ela que querem mal.

As árvores antigas, como esta oliveira, são um símbolo de permanência atravessando épocas: representam a memória e o respeito pelo passado; a cada geração que com elas convive é dado o privilégio de as legar como herança. Em Portugal, onde se derrubam árvores pelos mais fúteis motivos, poucas são as que nos ligam ao passado. Somos cada vez mais um país desmemoriado e postiço, que varre a sua identidade para debaixo de tapetes de asfalto ou a esmaga com toneladas de betão.



P.S. Não incluímos fotos da oliveira porque preferimos que o seu local exacto não seja conhecido. Em lugar dela, vemos na primeira das fotos o que resta da Magnolia grandiflora aqui referida; e, nas outras duas, mostramos dois panoramas do rio Vez, com o solar da Quinta do Requeijo em fundo à direita.

5 comentários :

V.M. disse...

É, de facto, um caso lamentável e infelizmente muito comum. Não percebo ´"ódio" que muitas pessoas têm às árvores. Lembro-me de ver há uns tempos na televisão um protesto dos habitantes duma rua do bairro lisboeta de Marvila, exigindo que a Câmara cortasse as árvores da rua porque as folhas caídas eram um horror.Provavelmente a CMLx fez a vontade. DEve ter substituído por palmeiras que é uma árvore que enche as ruas de lisboa cada vez mais, porque não deixa cair a folha.
Quanto à oliveira não se pode pedir a sua classificação?

manueladlramos disse...

O "ódio" é na maior parte das vezes causado pela ignorância. As pessoas só conseguem ver o eventual incómodo imediato (como o das folhas que se devem varrer, que aborrecimento!) e não têm consciência (por ignorância) dos profundos benefícios ambientais das árvores (o que seria dessa tal rua lisboeta no verão, sem sombra)e do seu valor histórico e paisagístico.
O caminho de que aqui falamos pode muito bem ser alargado para o outro lado (tendo aí que ser possivelmente transplantadas umas vinhas); quanto à classificação da oliveira, que também nos ocorreu, não cremos que fosse aprovada pois a árvore em questão já tem a base um pouco maltratada por agressões (prepositadas ou não) e o tronco está ferido por arames. De qualquer modo as oliveiras são árvores muito resistentes e como diz a proprietária com evidente amargura mas com ar desafiador também, mesmo que a matem ela vai demorar muito a morrer!

J.C.Pereira disse...

Felizmente que as Grandes Senhoras como as grandes árvores morrem de pé.
Todo o meu apoio e grande carinho pela lucidez demonstrada.
JcostaPereira(Coruche)

RuiMig disse...

A estupidez e a insensibilidade face á natureza nada tem a ver com o progreso. O progresso não é cortar árvores para os caciques locais poderem passear os seus carros. O progresso é tudo aquilo que nos leva mais longe nesta aventura humana. O que se passa cá em Portugal não tem a ver com progresso mas com o um povo triste, ignorante que se está lentamente a afundar-se nas areias movediças da história. O que se passa cá em Portugal é só uma generalizada falta de cultura e de respeito, por tudo. De uns pelos outros, pelas árvores, pelos animais, pela praias...etc. o Canadá,e o Japão são só dois exemplos de países de progresso e de natureza protegida.
Mudando de assunto.Gostei muito deste blog.
Rui Miguel Mateus (Aveiro)

Frederico Mazoni disse...

Ruimig, atenção. Concordo com tudo o que disse, mas eu não incluiria um país como o Japão no rol dos países que mais respeito têm pela natureza. Um país que, anualmente, assassina golfinhos gratuitamente, para deles extrair o óleo e a carne que é apreciada, não é um país civilizado. Não o pode ser nunca. Assista ao vídeo da matança anual dos golfinhos no site da Greenpeace, e confira. É um desespero. Logradas são as tentativas dos ambientalistas para evitar o massacre. A lei, como sempre, está do lado dos comerciantes. O respeito pelas espécies e pela Natureza, esse, nunca está contemplado pelo Direito.