26.7.15

Flor-aranha

Ao contrário de nós, que podemos viver por várias dezenas de anos e ultrapassar inúmeras estações, morrendo por doença, velhice ou acidente sem saber previamente quando, algumas plantas têm o poder de decidir por quanto tempo querem existir. As espécies anuais têm um único ciclo de vida, igual para todas as plantas dessa espécie, que pode durar umas poucas semanas ou alguns meses, e que se resume a desenvolver raízes, talos, folhas, flores e sementes; uma vez terminadas estas tarefas, a planta morre. O que implica que, durante meses, estas espécies não existem no planeta, restando delas apenas sementes, se as conseguirem produzir. Correndo tudo bem, as sementes dormem até uma altura oportuna do ano, momento em que se inicia a geração de novas plantas.

Esta estratégia de existência (que alguns descreveriam erradamente como live fast and die young), apagando-se e recomeçando quase do zero, é muito arriscada. Então por que optam algumas plantas por um tal esquema? Bem, pode não ser uma escolha mas resultado de condicionalismos que lhes são alheios, como a temperatura ou a quantidade de água e luz disponíveis no habitat. Não há, por agora, certezas sobre que processo leva à existência de plantas anuais. O que se sabe é que estas herbáceas têm de investir na reprodução, criando flores sofisticadas para atrair muitos polinizadores e gerando uma quantidade generosa de sementes fáceis de disseminar e com longo prazo de validade. É nestes pormenores que a planta gasta toda a sua energia, ao contrário das plantas perenes. Estas podem levar anos até dar a primeira flor, durante os quais se empenham em ganhar raízes fundas, gavinhas eficientes ou uma forma lenhosa; depois, resistentes, conseguem florir no ano antes de outras espécies e não ser tão exigentes com o tipo de solo, porque afinal têm bastantes nutrientes armazenados. Sem dúvida, desse modo garantem alguma superioridade na competição natural no seu habitat. Mas o regime anual não comporta só desvantagens. As plantas anuais são em geral mais versáteis, crescem mais depressa e têm flores ou folhas muito formosas. São, por isso, frequentemente usadas em jardins. Ou seja, têm nos apreciadores de jardins um aliado poderoso com que não contavam. Além disso, a reprodução por semente favorece a diversidade genética, o que, com uma produção abundante, protege as plantas anuais da extinção por mudanças bruscas e nocivas no ambiente. Finalmente, há a estação de clima mais agreste (seja o Inverno nas terras frias ou o Verão inclemente nas outras) com que as plantas anuais não têm de se preocupar. Pelo contrário, as perenes precisam muitas vezes de se auto-podar, como um barco que larga lastro para não se afundar, para se livrarem de folhas ou ramos que já não são eficientes na recolha de nutrientes ou estão a gastar numa estação recursos que serão essenciais no futuro a outras componentes da planta.




Cleome violacea L.

Por certo o leitor já adivinhou: as folhas trifoliadas, as flores púrpura e as vagens longas carregadas de sementes que hoje aqui mostramos são de uma herbácea anual. A distribuição global desta espécie restringe-se ao Norte de África e à Península Ibérica. Por cá, há registos da presença dela de norte a sul do continente. Em espanhol, chamam-lhe mostarda louca; os portugueses designam por flor-aranha as plantas do género Cleome. As folhas, com glândulas e pelinhos vários, foram o que primeiro conhecemos dela quando a vimos numa escarpa pedregosa de rocha ácida junto à ribeira da Foupana, em Alcoutim, no Algarve. Depois reencontrámo-las, também ainda jovens, num afloramento ultrabásico na margem esquerda do rio Sabor, em Mogadouro. Julgámos então que já não seria este ano que conheceríamos o resto da planta. Mas numa visita às margens do rio Mente, na fronteira de Chaves com Vinhais, vimos uma população com centenas de exemplares em flor, alguns com meio metro de altura.

Desconfiamos que o leitor já não nos está a prestar atenção, tendo ficado embevecido pelos detalhes violáceos, amarelos ou brancos que as fotos mostram. Esteja à vontade, demore-se quanto quiser, faça de conta que tem o seu tempo sob controle, como esta Cleome.

1 comentário :

bea disse...

Este texto e estas fotos estão uma maravilha. Parabéns.

Ah, e prazer em conhecer-te, flor-aranha, planta rara e restrita à Península Ibérica e Norte de África.