17.7.18

Estrelas do Homem


Aster sedifolius L. [sinónimo: Galatella sedifolia (L.) Greuter]



Aprendemos os caminhos do Gerês seguindo uma estrela. Ou tentando segui-la, pois nunca a víamos: as nossas excursões eram diurnas e, em qualquer caso, a estrela que procurávamos era da terra e não do céu. Entre 2010 e 2015, quando o Verão decaía para o Outono, percorremos, quase sempre sozinhos mas uma ou outra vez guiados por caminheiros experientes, o limite oriental da serra do Gerês nas cercanias de Pitões das Júnias. Cruzámos o rio Beredo e o vale da ribeira do Forno, ascendemos aos cotos da Fonte Fria, passámos por muitos dos lugares onde cabras e lobos jogam às escondidas. O encanto agreste da paisagem era temperado pelo receio de nos perdermos, pois a vida na cidade não nos prepara para estes descaminhos tantas vezes camuflados pela vegetação, sem pontos de referência reconhecíveis.

Deixámo-nos dessas aventuras, frustrados por a estrela nunca se nos mostrar, até que soubemos que ela se acolhia na vertente ocidental da serra do Gerês, de acesso bem mais simples. Em 2017, na segunda quinzena de Setembro, subimos o pedregoso vale do rio Homem, então reduzido a uma sucessão de piscinas ligadas por um fio de água, e saltámos para a outra margem no ponto assinalado. Num mato dominado pela carqueja, com pequenos carvalhos assomando aqui e ali, lá se escondia uma vintena de pés de Aster sedifolius: era essa a estrela que procurávamos há sete anos. O ano quente e seco quase nos estragava o momento, pois a floração, que deveria estar no início, mostrava-se praticamente terminada.

O Aster sedifolius é uma planta esguia, de 60 a 90 cm de altura, com caules simples ou ramificados apenas na parte superior, folhas lineares algo carnudas (é isso que sugere o epíteto sedifolius), e vistosos capítulos florais lilazes e amarelos. De acordo com os manuais com os quais desta vez estava em desacordo, a sua floração é outonal e prolonga-se até Outubro ou Novembro. Distribuída pelo sul da Europa desde a Península Ibérica até à ex-Jugoslávia, mas ausente da Grécia, aparece de norte a sul da Península mas é mais frequente ao longo da costa mediterrânica. Em Portugal só tem sido avistada, e pouco, na serra do Gerês.

Quando a encontrámos, já sabíamos que a estrela tinha deixado de o ser. O populoso género Aster tem vindo a ser metodicamente desmembrado, e as três espécies consideradas nativas de Portugal foram varridas para outros géneros: o Aster tripolium, que é frequente em sapais e estuários, chama-se agora Tripolium pannonicum; e os raríssimos Aster sedifolius e A. aragonensis (este um endemismo ibérico) integram agora o género Galatella. Apesar de essa separação ter sido ditada sobretudo por razões filogenéticas, ela também se parece justificar por razões morfológicas -- é essa a conclusão dos autores de um detalhado estudo publicado em 2015 com o título Taxonomic status of Aster, Galatella and Tripolium (Asteraceae) in view of anatomical and micro-morphological evidence.

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