20/03/2026

Elogio da trivialidade

Dente-de-leão (Taraxacum sp.)
(fotografado à beira-rio em Amarante)
Deveríamos estar gratos às flores que aparecem sem serem chamadas, alegrando os recantos que o nosso desmazelo abandonou, ou atenuando a artificialidade da paisagem urbana. Agora que é época dos dentes-de-leão, é vê-los irreprimíveis a florir em caldeiras de árvores, fendas de calçadas e jardins descuidados. Só uma teimosa cegueira, reforçada pelo hábito de desprezar o que é vulgar, explica não serem eles reconhecidos como mais belos e úteis do que a maioria das plantas que acarinhamos como ornamentais. E em Portugal, onde os jardins públicos deixaram de ter jardineiros para caírem nas mãos de implacáveis destroçadores de plantas, ainda menos se entende a perseguição movida a dentes-de-leão, boninas, e demais flores voluntariosas. De modo nenhum elas tiram espaço às flores cultivadas, já que nada se cultiva nos bisonhos relvados em que os jardins se transformaram.

Não é só nas cidades que proliferam os dentes-de-leão. Neste prelúdio de Primavera, muitas são as compostas de flores amarelas que se espalham por campos, bermas de estrada, ladeiras e valetas. Mesmo que a abundância e ubiquidade as façam parecer triviais, cada uma delas, se observada com atenção, revela pormenores sedutores e inesperados: o recorte das folhas e o modo como elas se organizam; os capítulos perfeitamente simétricos que, em vez de serem uma flor só, são uma multidão de minúsculas flores.

Para ilustrar esta dissertação, mostramos em seguida duas compostas de floração primaveril, ambas muito comuns nas Baleares (e em particular em Menorca, onde as fotografámos) mas inexistentes em Portugal — onde, porém, não faltam plantas de aspecto semelhante, amplamente distribuídas de norte a sul do país.

Hyoseris radiata L.


A primeira delas, Hyoseris radiata, é uma herbácea perene que coloniza fendas de rochas calcárias. As folhas com lóbulos imbricados fazem lembrar as dos dentes-de-leão (género Taraxacum), mas são mais estreitas e compridas, e com maior número de divisões. Os capítulos, um por cada haste, são pequenos, e os aquénios (frutos), ao contrário dos do dente-de-leão, não exibem aquela plumagem farta que permitia às crianças de outrora averiguar com um sopro se o pai da coleguinha era ou não careca.

A Hyoseris radiata distribui-se pelo Mediterrâneo ocidental, desde Espanha aos Balcãs, e desde Marrocos à Tunísia. Em Portugal, a representante única do género é Hyoseris scabra, uma diminuta planta anual com floração pouco vistosa.

Hypochaeris achyrophorus L.


A segunda composta de hoje trazida de Menorca, Hypochaeris achyrophorus, goza também de uma distribuição mediterrânica, se bem que mais oriental: está ausente da Península Ibérica e de Marrocos, mas estende-se até à Turquia, Líbia e Israel. Curiosamente, as duas representantes do género Hypochaeris em Portugal, que são H. glabra e H. radicata, apresentam hastes despidas, contrastando com as da H. achyrophorus, que são híspidas de alto a baixo. Além disso, esta última tem bracteas involucrais bem individualizadas, todas de igual comprimento (penúltima foto acima), ao passo que, nas outras duas espécies, se sobrepõem várias camadas de brácteas de diferentes comprimentos (confirme aqui). São diferenças tão marcantes que parece forçado incluir as três espécies no mesmo género. Isso mesmo entendeu a Flora Iberica ao emancipar a planta baleárica num género autónomo, justamente chamado Achyrophorus. Na área abrangida pela obra, a Flora Iberica distingue, além de Achyrophorus valdesii (sinónimo de H. achyrophorus), duas espécies adicionais, A. rutea e A. stuessy, ambas repartidas entre o sul da Espanha continental e o norte de África.

A Hypochaeris achyrophorus (ou Achyrophorus valdesii) é uma planta anual que frequenta prados, bermas de caminhos, campos cultivados e até, ocasionalmente, clareiras de bosques, sempre sobre substratos calcários. Quando, em Menorca, a vimos pela primeira vez, em Pas d'en Revull, uma passagem de sonho num desfiladeiro calcário, julgámo-la um raro tesouro botânico. Após sucessivos reencontros, compreendemos que, pelo menos nessa ilha, se tratava de um planta trivial — prova acabada de que a trivialidade não significa excesso nem exclui a beleza.

10/03/2026

Areias de Menorca



Os areais de praia, por que muitos já anseiam, raramente são casa confortável e sossegada para plantas. No litoral de fácil acesso — onde ir passar um dia soalheiro à praia significa levar o carro abarrotado de víveres, estacioná-lo quase em cima da espuma das ondas, ligar a música portátil bem alta e, em dois pulos, entrar no mar aos berros — o pisoteio é tão intenso que por ali quase só sobrevive o chorão. Por outro lado, nas praias mais pedregosas, quase sem areia mas com recantos inacessíveis bem conservados, o solo nem sempre é favorável à vegetação, mantendo apenas plantas que conseguem segurar-se e alimentar-se na rocha dura. Há, porém, algumas praias que, cheias de defeitos para os veraneantes (vento, areia grossa, mar alteroso, cheiro a algas em decomposição), conseguem manter um habitat acolhedor para herbáceas excepcionais. Trata-se de lugares onde só se chega depois de uma longa caminhada, terminando o trilho num agrupamento de rochas que só pode ser circundado quando a maré está baixa. Para visitar essas praias, é necessário saber quando ocorre a preia-mar, não vá a desatenção deixar-nos por várias horas com água pelo queixo. A praia de Trebalúger, em Menorca, onde encontrámos uma população numerosa de Pseudorlaya pumila, sofria ainda de outra imperfeição muito benéfica para a vegetação: uma colónia de aves fez de parte do areal a sua sala de estar, ficando o chão coberto de guano. Com o odor intenso e desagradável, os veraneantes mantinham-se longe, e assim não havia o risco de calcarem as plantas.

Pseudorlaya pumila (L.) Grande


Há registo da presença da P. pumila na costa sul de Portugal continental, alargando-se a sua distribuição à região mediterrânica e a parte da Europa ocidental. Partilha areais junto ao mar ou dunas primárias com a outra espécie de Pseudorlaya que aqui em tempos vos mostrámos, a P. minuscula, que também ocorre em areias de beira-mar do norte e centro do país, e é nativa da Península Ibérica e Marrocos. As duas espécies, pumila e minuscula, são herbáceas anuais muito hirsutas, com lindas flores da cor-de-ameixa, que diferem sobretudo pelo tamanho dos talos e dos frutos (ambos maiores na P. pumila). Florescem entre Fevereiro e Maio, meses em que é mais provável descobri-las na praia por já não estarem soterradas na areia.