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10/10/2004

Padre António Vieira e "a segunda Árvore da Vida"

«"Altissimus de terra creavit medicinam.": Deus criou da terra a medicina; mas de que terra, ou em que terra? Assim como a primeira Árvore da Vida foi criada no meio do paraíso: "Lignum vitae in medio paradisi."(Gen.II-9) assim a terra de que Deus, e onde Deus criou a segunda, foi o meio da redondeza da mesma terra. A prova e a razão é porque em todas as quatro partes do mundo criou Deus para serviço e uso da medicina vários antídotos, ou instrumentos medicinais, conforme as qualidades e enfermidades das mesmas terras. (...)
Plantada pois no meio das quatro partes do mundo a segunda Árvore da Vida, ela com as suas raízes penetra até ao centro da terra, donde com maior utilidade que a cobiça, desenterra todo o género dos minerais de tanto mais poderosas virtudes, quanto mais simples. (...)
Regam estas raízes os rios e fontes, umas quentes, outras frias, todas saudáveis. E as mesmas águas do mar, posto que salgadas, as não fertilizam, nem enriquecem menos, fecundas e abundantes dos remédios, que, ou nadam nos ossos e entranhas dos peixes, ou moram e se encerrem nas conchas dos que não podem nadar.
(...) Das raízes assim regadas, cresce e se engrossa o tronco de toda a famosa árvore, formado de todos os lenhos medicinais que criam os vizinhos e remotos climas; dos quais, ou abertos os poros com o calor do sol, se destilam em suores, ou feridos mais interiormente nas veias, correm como sangue os bálsamos e as mirras: e estas pelo parentesco que têm de humores, ou restringindo, ou relaxando (como no instrumento as cordas) os reduzem facilmente à natural harmonia.»
in "A Medicina -D'um panegírico de S. Lucas, pregado em Lisboa, muito curioso por dar a ideia perfeita das doutrinas então em voga. Sermões, 10º vol" -Trechos selectos do Padre António Vieira:1697-1897. Lisboa: Typ. Minerva Central, 1897
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Anterior: Padre António Vieira sobre como há-de ser um sermão - Analogia com a árvore

11/07/2004

Padre António Vieira - Analogia com a Árvore

Sobre como há-de ser um sermão:
«Um sermão há-de ser de uma só cor, há-de ter um só objecto, um só assunto, uma só matéria. [...] Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de ter variedades de discursos, mas esses hão-de nascer todos da mesma matéria, e continuar e acabar nela.

Quereis ver tudo isto com os olhos? Ora vêde. Uma árvore tem raízes, tem troncos, tem ramas, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim há-de ser o sermão: há-de ter raízes fortes e sólidas, porque há-de ser fundado no Evangelho; há-de ter um tronco, porque há-de ter um só assunto e tratar uma só matéria. Deste tronco hão-de nascer diversos ramos, que são diversos discursos, mas nascidos da mesma matéria, e continuados nela. Estes ramos não hão-de ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discursos hão-de ser vestidos e ornados de palavras. Há-de ter esta árvore varas, que são a repreensão dos vícios; há-de ter flores, que são as sentenças, e por remate de tudo há-de ter frutos, que é o fruto e o fim a que há-de ordenar o sermão.

De maneira que há-de haver frutos, há-de haver flores, há-de haver varas, há-de haver folhas, há-de haver ramos, mas tudo nascido e fundado em um só tronco, que é uma só matéria. Se tudo são troncos, não é semão é madeira. Se tudo são ramos, não é sermão são maravalhas. Se tudo são folhas, não é sermão são versas. Se tudo são varas, não é sermão, é feixe. Se tudo são flores, não é sermão é ramalhete. Serem tudo frutos, não pode ser, porque não há frutos sem árvore. Assim que nesta árvore, a que podemos chamar árvore da vida, há-de haver o proveitoso do fruto, o formoso das flores, o rigoroso das varas, o vestido das folhas, o estendido dos ramos, mas tudo isto nascido e formado de um só tronco, e esse não levantado no ar, senão fundado nas raízes do evangelho: Seminarem semen. Eis aqui como hão-de ser os sermões, eis aqui como não são. E assim não é muito que se não faça fruto com eles. »
In Trechos selectos do Padre António Vieira:1697-1897. Lisboa: Typ. Minerva Central, 1897.