19.7.04

Cortesias do progresso

«Leça era noutro tempo uma terra à parte no mundo, de ingleses velhos, de poetas e de marítimos. Tinha um velho forte transformado em hotel, ruas misteriosas e casas com degraus de pedra para os grandes portões vermelhos, que nunca se abriam, e um fio de rio - o mais feliz do mundo - onde a água corria devagar entre salgueiros, parando, cismando, reflectindo a camada de folhas, umas verdes, outras de oiro. Vinha de cima dos pinheirais isolados e acarretava folhas; vinha dos campos de milho e cheirava a bravio; vinha dos açudes onde as lavadeiras cantam e trazia consigo o eco das risadas. Embalava o barco do Montalvão, que, no fundo da caverna, sonhava, de barriga para o ar, a mais bela obra do mundo. (...) Descia, estremecia (...), parava entre as árvores que se fechavam em cima formando uma abóbada, e acabava em fim por fazer mover o velho moinho de ao pé da ponte. (...) E sentia-se que o rio tinha pena de acabar. Estava cheio de versos, de cantigas, de silêncio, entontecido e quase humanizado. (...)
Hoje quase tudo isto desapareceu: por Leça passou um terramoto. O rio, sem o Montalvão e sem as árvores, perdeu todo o encanto. Tenho medo de lá tornar, como tenho medo de ir à Foz: por toda a parte vejo fantasmas. (...) Só o mar inalterável conserva a mesma beleza e a mesma tragédia.»


Raul Brandão, In Livros e Escritores, 1923, e Seara Nova, 1928

2 comentários :

manueladlramos disse...

Quando era miúda tomava banho no rio Leça lá para os lados da chamada "Ponte dos alemães", perto de Águas Santas, onde viviam os meus avós.
Agora acho que passa por cima dessa zona um qualquer viaduto de auto-estrada! Nunca mais lá voltei mesmo. Se fossem apenas fantasmas o que lá fosse encontrar! Mais pilares de auto-estradas (que tanto jeito fazem), "is too much"!

Anónimo disse...

todos os dias quando chego ao escritório (perto da antiga fábrica da lionesa) sinto na pele (ou no nariz nestes caso) o que é o rio leça hoje em dia.
mais ou menos mal cheiroso mas quase sempre incomodativo.
"interessante" também é saber de que cor o rio vai estar nesse dia, cinzento, avermelhado, esverdeado mas sempre turvo.
vitorsilva
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