8.8.05

A "acácia" do Jorge


Foto: pva 0508 - Robinia pseudoacacia frente à Casa de Camilo, São Miguel de Seide

Jorge, o "filho louco" de Camilo Castelo Branco, plantou em 1871, tinha então 8 anos, uma árvore junto à escadaria de pedra no terreiro da casa de S. Miguel de Seide. A esta árvore se refere Camilo várias vezes, como em Durante a febre:

Quando a Acácia do Jorge ainda outra vez inflore,
Chamai-me, que eu de Abril nas auras voltarei
.

A árvore não é uma acácia, mas uma robínia. Um deslize em taxionomia que não ofusca o apego de Camilo ao convívio com a natureza, alimentado pelas léguas palmilhadas desde a infância em pedregosas ladeiras de serra. Camilo chegou a ser um peregrino convicto de arvoredos, córregos e morros de terra agreste, aldeias, costumes e lendas populares, que depois transfigurou em palco de prosa admirável.

Estas árvores são minhas amigas há vinte e sete anos. (...) Seria engodo ao riso andar-me eu aqui abraçando árvores, se alguém me visse. Que o não saibam os tolos, nem os felizes. (...) Quando eu lá ia [às matas do Bom Jesus do Monte], voltava sempre melhor. Nunca me aconteceu outro tanto ao dobrar a última página de livro de moral.

6 comentários :

Gisele disse...

Olá,
Gostaria de parabenizá-los pelo belíssimo blog! As fotos são lindas.

Eu estudo pintura em aquarela em técnicas chinesas, e eu não conhecia muitas das flores que eles gostam de pintar. E aqui pude ver fotos de flores que não encontro com facilidade no Brasil, como a magnólia, por exemplo.

Um abraço,
Gisele Pellegrini

António Viriato disse...

Cara Amiga,

Desculpe-se a inexactidão taxionómica, pelo muito carinho que Mestre Camilo nutria pela Madre Natura, em particular pelas árvores, como a referência aqui exarada e muitas outras páginas da sua soberba prosa amplamente deixam perceber. A fotografia colocada é aliás notável, na sua expressividade, transmitindo com bastante aproximação a visão algo dramática, mas encantatória, do refúgio camiliano de Seide. Toda a casa e a sua envolvente nos causam, mesmo a esta distância, uma espécie de sentimento trágico da vida que ele, Camilo, viveu naquele espaço que parece carregado do seu atormentado espírito.

Evocação oportuna, agora que estamos em época de férias e de viagens, talvez a recomendar uma agradável revisitação, para os que já lá estiveram ou, para os que ainda não conhecem o local, a sugestão de uma urgente visita, para se encantarem com toda a magia daquele universo, que o génio de Camilo fecundamente absorveu ao longo da sua atribulada vida, traduzida numa produção literária febrilmente ficcionada, intensa e tragicamente vivida.

Mesmo para alguém que se presuma de espírito mais prático, é difícil fugir ao sortilégio do local.

Anónimo disse...

Maria de Carvalho: O texto reproduzido («Estas árvores são minhas amigas...» etc.)pertencem a que obra de Camilo? Tinha curiosidade em saber.
Pedro Teixeira

Maria Carvalho disse...

Caro Pedro Teixeira: O excerto que aqui coloquei em itálico é do início da novela de Camilo, "No Bom Jesus do Monte", que conta a história de Fanny Owen.

Caro António Viriato: É bom manter este "blog" para poder ler as suas sábias palavras. Obrigada. Tem razão, esta casa merece uma visita demorada.

Anónimo disse...

E que tal a obra de SV mesmo ao ladinho? gostaram?
S.(de Sementinha ;-)

Paulo Araújo disse...

A obra do SV... Quando lá entrei, parecia ter atravessado, como nos filmes de ficção científica, uma daquelas fissuras no espaço-tempo que permitem a passagem instantânea entre dois lugares e tempos afastados. "Mas então, como é que estou em Serralves se ainda agora estava em Seide?"