23.8.05

Cidade de gatilho fácil

O Porto é, cada vez mais, uma cidade que se habituou a trucidar as suas árvores: desde que tomou o gosto à serra eléctrica e ao cheiro da madeira cortada já não consegue controlar o ímpeto arboricida. Terá sido com a Porto 2001 que a cidade compreendeu, num frémito destruidor, que as árvores também se abatem, bastando para tanto a vontade de quem as quer abater; não tardou que a Metro do Porto seguisse e ampliasse esse exemplo (tanto assim que foi galardoada com um merecido certificado de mérito arboricida); mais recentemente, é a própria Câmara que não deixa esmorecer a campanha.

Exemplos? Além da Av. da Boavista, transformada pela Câmara e pela empresa do Metro num escaldante deserto de asfalto, também a Rua D. Manuel II perdeu as tílias à frente do Museu Soares dos Reis; e, para completar a carecada na zona, foram há dias abatidas as árvores (áceres), algumas delas jovens, do lado do Hospital de Santo António na Rua Alberto Aires Gouveia, supõe-se que para permitir a colocação da linha do eléctrico. (É curioso que, quando realmente lá passavam eléctricos, as árvores se puderam manter; agora que se põem carris por onde talvez nunca passe qualquer eléctrico, considerou-se necessário tirar as árvores.)

Mas o pior foi o recente abate do centenário plátano no gaveto das ruas Damião de Góis e Antero de Quental. O terreno onde se situava a árvore, usado como aparcamento caótico, estava vazio e há muito aguardava construção. O que não se esperava é que este plátano, um dos mais volumosos da cidade e uma árvore de valor inestimável, fosse abatido com o início da empreitada. Qualquer arquitecto inteligente saberia integrá-lo no novo edifício; qualquer câmara municipal consciente exigiria a preservação desse verdadeiro monumento verde. Nada disso sucedeu e o plátano já não existe; o seu abate representa uma perda irrecuperável. Será que a Câmara perdeu o juízo? Ou o Regulamento dos Espaços Verdes foi conversa para entreter pacóvios?

6 comentários :

AM disse...

Mais do mesmo, dia após dia :(

Que é que se pode fazer?

Obrigado por, ao menos, haver quem denuncie.

AMNM

Rita disse...

Isso é um escândalo!!! Não basta perdermos uma grande parte das árvores que temos no nosso país tristemente nos incêndios e ainda se dão ao luxo de abater árvores!!!! Ainda por cima no Porto que cada vez mais se apresenta mutilado...seja onde for, as pessoas não dão valor às árvores e ao que elas representam no espaço urbano. É que agora com a calamidade dos incêndios que se faz sentir em Portugal, as pessoas têem que procurar novos espaços frescos e agradáveis nas cidades porque a floresta está a arder. Eu não me sinto bem debaixo de uma árvore que tem 1/2 anos e que ocupou o lugar de uma que tinha 100 anos....

Anónimo disse...

Na terra da impunidade, tudo se pode fazer. E tudo o que se pode fazer faz-se. E tem-se feito alarvemente. A cidade é de gatilho fácil, porque o país é um faroeste. Nem isso. No faroeste havia respeitinho, senão ainda se acabava coberto de alcatrão e penas, ou um bocado pior, com o gato pingado a tirar medidas... -- JRF

Anónimo disse...

Ora conte-nos lá quantas árvores abateu a Porto 2001. E, dessas, quantas estavam em boas condições de saúde.
Obrigada
MAP

Paulo Araújo disse...

A Porto 2001 abateu:

- várias dezenas de plátanos na marginal do Rio Douro;

- todas as árvores que existiam na Praça da Cadeia da Relação;

- seis grandes plátanos na Praça de Parada Leitão e cerca de duas dezenas de robínias na mesma praça;

- três ou quatro magnólias em ruas ou praças "requalificadas" (incluindo uma na rua de Santo Ildefonso e outra à frente da Universidade Moderna);

- mais de uma dezena de ciprestes de grande porte junto ao elevador de Guindais;

- uma palmeira no Largo Primeiro de Dezembro;

- todas as camélias que havia no Jardim da Cordoaria, à excepção de uma;

- os dois bordos de grande porte junto ao ICBAS (estes só alguns anos depois, porque a execução desse projecto da Porto 2001 sofreu, como sabe, grandes atrasos).

A lista, reconstruída de memória, talvez esteja incompleta. De uma coisa pode ter a certeza: nenhuma destas árvores foi abatida por estar doente, mas por não se enquadrar na visão do arquitecto para a respectiva zona. A terminar, duas observações:

- quando quiser discutir seriamente um assunto, informe-se primeiro;

- prefiro falar com pessoas que dão o nome em vez de se refugiarem numa sigla.

Cláudia disse...

:( :( :(
Vivo no terror do dia em que se lembrarem de abater a árvores da minha rua... Não são mais especiais do que essas a não ser para mim...