5.9.05

"As minhas queridas árvores de Ayres de Gouveia !!!"

«Caríssima amiga
Parece que só contacto contigo quando algum pequeno drama acontece no meu também pequeno universo quotidiano... talvez seja isso mesmo, ou nem tanto.
Estou tão escandalizada, ofendida talvez seja o termo mais preciso, com o derrube dos últimos áceres da Rua Ayres de Gouveia que não posso evitar de partilhar esta tristeza.
É de facto uma cidade de gatilho fácil, cujos destinos vão sendo conduzidos por um hábil pistoleiro sob o lema "atirar a matar".
Há anos que me delicío a apanhar de manhã uma meia dúzia de folhas do chão e daquelas pequenas hélices com sementes (samarídeas??? desculpa a ignorância, não sei o nome) que levo para a secretária e me fazem companhia durante o dia como marcadores na agenda.

Aquelas árvores jovens e escorreitas que faziam um belo introito ao jacarandá do Viriato foram... assassinadas, uma delas à minha frente, hoje de manhã, com uma escavadora e uma serra eléctrica, e esta pacata cidadã nada pode fazer se não dar um par de berros ao desgraçado que segurava a serra eléctrica e que olhou para ela com ar de quem pergunta "mas afinal estou à porta do Santo António ou do Conde Ferreira ?".
É pena que o espaço urbano continue a ser tratado por habilidosos que fazem nele a bricolage que provavelmente só por inércia não fazem em casa, do género "derrubar a parede (que por acaso era mestra) para aumentar a casa de banho, de maneira a que caiba a máquina de remar e a bicicleta, que assim fazemos aqui o nosso pequeno ginásio".

Os pequenos mundos, as pequenas ideias, as soluções comezinhas sempre acompanhadas da devastação brutal, única "grandeza" com que, em vão, se tenta ocultar a mediocridade. Rezo para que não lhes ocorra, para "grand final", descer ao largo do Viriato; quem sabe a tal engenheira diagnostica ao jacarandá alguma maleita terrível e contagiosa ... e a Câmara lhe trata da saúde de vez.
Desculpa o desabafo, mas estou mesmo irritada. (...) 30.08.05»


(não consigo ler estas palavras sem sentir vontade de, com esta amiga, berrar também a minha revolta. mas ainda não perceberam?! não se abatem árvores sem avisar, sem explicar; há pessoas que gostam genuinamente delas, que as sentem companheiras e amigas, essenciais!
qual a razão para o abate destes áceres? alguém foi já chamado à responsabilidade? haja respeito e educação!)

A fotografia que ilustra este post (clicar para aumentar) e a única que possuo da referida artéria e das suas árvores, foi tirada em Dezembro de 2003 do alto do Palácio da Justiça.
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3 comentários :

nuvemLiLás disse...

Teria a mesma atitude.
É estranho e absurdo não ter um aviso sequer. Fica a sensação de um "acto obscuro", mal intencionado.

Maria Carvalho disse...

O lugar está agora bem diferente do que mostra a foto: além de terem desaparecido os áceres de ambos os lados da rua, o canto ajardinado do hospital, que na foto aparece verde e que já tinha arbustos elegantes e, nesta altura, muito floridos, também foi destruído. Na "taça" que se vê no recinto do hospital (ex-heliporto do hospital) foi construído um edifício envidraçado de formas arredondadas.

manueladlramos disse...

Não penso que sejam "actos obscuros" ou mal intencionadas; acho que são acções que demonstram falta de sensibilidade, decorrente de uma certa incultura. Má gestão também.