25.4.07

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Libertia grandiflora

«Sem enraizamento e sem memória, os povos, como os homens, são apenas náufragos.»

Manuel António Pina
(JN, 24 de Abril de 2007)

8 comentários :

Alguém disse...

Pois não bastam os barcos e a memória para os povos, bem como os homens e mulheres, deixarem de ser náufragos: são precisos remos. Faltam os remos e a vontade de remar a portugal. Tenho 25 anos e não acredito na democracia. A tirania da maioria vetou a minha possibilidade de existência, e ainda só não fugi deste regime e deste país...porque não quero abandonar as árvores da minha aldeia: há amores assim.

O 25 de Abril não me surpreendeu. O que, ainda hoje, me choca é a letargia de um povo que nada fez, porque assim o entendia como correcto, durante uns impressionantes 48 anos, antes daquele dia. Impressionante: 48 anos, meio século, portanto. Impressionante. Tenho vergonha da vossa geração. Relembro que foi um punhado de soldados, chefias menores, que em poucas horas "limparam" 48 anos. Os restantes milhões de portugueses não tinham tempo, nem vontade. E se me disserem que estou errado, que a maioria do povo português era contra salazar e caetano, eu perguntarei: e foi preciso esperar 48 anos? Havia assim tanta coisa importante para fazer na horta ou no quintal que impedisse uma revolução à séria e mais cedo?

Para mim é inequívoco: não houve revolução. Houve um fingimento de revolução. O dia antes e o dia depois foram iguais. A revolução, que não o foi, foi apenas um golpe de estado militar, porque eram os militares quem não suportavam mais a sua situação: a morte prematura e inútil de mancebos. Sejamos francos: foi apenas isto.

No lugar onde vivo, que não é um portugal profundo, e que não difere da cidade onde vivi, o feriado de hoje será passado assim: os homens juntam-se no café e bebem uns copos, enquanto as suas mulheres lhes preparam o almoço e a roupa para os restantes dias da semana. Viva a liberdade!

asn disse...

Mesmo na mouche. A beleza da planta, o simbolismo do seu nome, a reflexão.
Sem dúvida, seremos condenados a vogar sem rumo e sem dimensão se não conseguirmos agarrarmo-nos a pontos de referência que guiem as nossas vidas.
Esses faróis podem ser coisas tão simples e tão grandiosas como uma "mera" árvore, porque não?
Na minha aldeia natal, que visito esporadicamente, nas últimas 3 décadas, cortaram um cedro em frente à capela. Porquê, perguntei eu? Que mal fiz eu para merecer o castigo de me cortarem uma das minhas raízes e da minha memória?
R.: as raízes estavam a desalinhar um muro!...
António

Landahlauts disse...

Muchas felicidades a todos, desde Andalucía.

He copiado la frase de Manuel António Pita en mi blog. He establecido un link que, no sé porqué, no aparece.

Bispo disse...

Hoje que celebramos uma memória longínqua da felicidade sempre adiada, uma memória sempre agravada, quero agradecer-vos a repetida centelha de felicidade que dos vossos "postes" nos alenta. Obrigado!..pela beleza aí sempre, indiferente aos despojos da natureza (a outra) dita humana.

António disse...

Pois é, Alguém, não bastam.
Mas basta-nos também gente assim, sem rumo, fugitiva.
33 depois, mantém-se o espírito que tão bem descreve e que tão bem lhe assenta.
Deixe-se ficar, assim, sem remar, envergonhado, amarrado às árvores da sua aldeia. Está bem. Não incomoda.
E espere, espere... Mais 48 anos, que os tem pela frente.
Sejamos francos: finja, finja muito. Talvez lá chegue.

Anónimo disse...

«Disse-vos que um dia vos contaria uma história que aconteceu antes de vocês nascerem, num tempo difícil e incerto. É o que vou fazer em seguida, como quem remexe num velho álbum de fotografias sem temer o que a memória, em exercício de revisitação, pode trazer à superfície.

Vou falar-vos de um tempo em que este País até medo tinha de pronunciar a palavra “liberdade”, por ser considerada subversiva e ameaçadora para a ditadura. Não havia partidos nem liberdade de associação e de reunião porque o regime político que governava Portugal receava as ideias novas e as mudanças que elas podiam provocar.

Tudo era vigiado e controlado. O medo morava em toda a parte e as paredes tinham ouvidos atentos e olhos vigilantes. Havia uma guerra em África onde se era ferido e se morria sem se saber muito bem como nem porquê. Era muito elevada a taxa de analfabetismo, porque ler era saber mais e e ganhar o gosto de ser perguntador. A pobreza nos campos levava muitos milhares de pessoas a emigrarem. Outros partiam por não quererem fazer uma guerra com que não concordavam e levavam consigo a inteligência e a generosidade da juventude. O exílio era o seu destino e a sua amarga sina.

E, contudo, apesar do medo que espalhava os seus múltiplos tentáculos, havia quem tivesse a coragem de erguer a voz e de cantar contra a máquina de opressão e do silêncio. Assim nasceu, na ausência da liberdade e da democracia, a canção política e com ela, o coro do descontentamento e da revolta que , em 25 de Abril de 1974, se tornaria imensa festa a encher as ruas e as praças. (…)» in Zeca Afonso e a Malta das Cantigas >, José Jorge Letria > (Terramar > , 2002)

manueladlramos disse...

Para todo o mundo e ninguém... e na sequência do comentário anterior.
(Hoje ando a publicar noutro lado ;-)

bettips disse...

Tanto abraço e flor para vós! Tanto que mostrar o dom das pequenas flores... Os cravos da liberdade conquistada. Alegria que ninguém nos pode tirar. Até sempre, aqui, na Natureza que não mente.