4.3.08

O bê-á-bá da jardinagem



Malcolmia maritima

Nos terrenos adjacentes à linha do Metro junto à estação da (Santíssima) Trindade há indícios da intervenção do Espírito Santo. Feita de substância que as palavras não sabem captar, esta entidade intemporal, sem atributos humanos nem um portfolio de aparições que justifique culto alargado, tem uma forma canónica preferida de se manifestar mas pode optar por outras. E se a doutrina da linha férrea está orientada para pais e filhos, as flores que marginam o aço são obra de oficina diversa. As mãos que moldaram trilhos, comboios e respectivos guinchos não são as mesmas que, furtivamente, semearam flores cujo silêncio colorido saúda os passageiros entre um túnel e um cochilo.

E não se deduza daqui que o Espírito Santo tem curso de jardinagem completo. Plantar goivinhos-dos-Balcãs (Malcolmia maritima), uma vez compradas as sementes em loja de flores estrangeiras, é tarefa de criança, cartilha com que aliás elas se iniciam, em países onde se estimam as plantas, no entusiasmo pelo mundo vegetal. Basta lançá-las em terra macia e, em poucos dias, nascem todos estes olhinhos rodeados por quatro pestano-pétalas, em tons suaves de rosa, carmim ou magenta, suspensos em hastes de onde, noutros lugares, se avistam dunas ou montanhas. É através deles que, à boca do túnel, o Espírito Santo lisonjeado se diverte com a nossa ondulação.

2 comentários :

António disse...

Muito gosto de aqui vir! São posts assim que me fazem retornar, vezes e vezes, ansiar pela manhã.
Obrigado

berenice disse...

Lindíssimo post e lindíssimas fotos! Parabéns pelo blog.
Abraços.