11.2.11

O Minho tem o romanesco da árvore e o romance da família


Rio Arado, Gerês

O Minho lucra muito, visto assim de passagem, na imperial de uma diligência, lá muito no galarim do tejadilho, onde as moscas não se álem a ferretoar-nos a testa e a sevandijar-nos os beiços convulsos de lirismo.

Viu V. Ex.ª perfeitamente o Minho por fora: as verduras ondulando nas pradarias, os jorros de água espumando na espalda dos outeiros, os fragoedos às cavaleiras dos milharais, a amendoeira a florejar ao lado do pinheiral bravio, as ruínas do paço senhorial com os seus tapetes de ortigas e guadalmecins de musgo ao pé da chaminé escarlate e verde do negreiro a golfar rolos turbinosos de fumo indicativo de panelas grandes e galinhas gordas, lardeadas de chouriços. Simultaneamente, ouviu V. Ex.ª o som da buzina pastoril ressonando a sua longa toada nas gargantas da serra; viu os espantadiços rebanhos alcandorados nos espinhaços dos montes, e os rafeiros à ourela das estradas com os focinhos nas patas dianteiras, orelhas fitas e olhar arrogante. Reparou decerto na pachorra estóica do boi cevado, que parece estar contemplando em si mesmo a metempsicose em futuro cidadão de Londres mediante o processo do bife. Tudo isto, que é a forma objectiva do Minho romântico, viu V. Ex.ª. (...)

Mas o que D. António da Costa não teve tempo de ver e apalpar foi o miolo, a medula, as entranhas românticas do Minho; quero dizer – os costumes, o viver que por aqui palpita no povoado destes arvoredos onde assobia o melro e a filomela trila. (...)

É neste meio que eu me abalanço a esgaratujar novelas.

Camilo Castelo Branco, O Comendador (Novelas do Minho, 1875)

5 comentários :

Anónimo disse...

Belo post.
Bom fds!
a) flordocardo

Virginia disse...

Foto invejável.....linda!

Quinta das Mogas disse...

Vou fazer um pequeno post no meu blog sobre o Salgueiro, também evocado por Camilo nos Ecos Humorísticos. Obrigado pelas vossa pérolas!

Maria Carvalho disse...

Obrigada flordocardo, Virgínia, Quinta das Mogas.

[O Paulo está no hospital; logo que fique bom, o blogue recomeça.]

Espaço do João disse...

Passei por este espaço, recomendado por uma amiga, vivendo na Ilha da Madeira.
Como sou curioso e, amante da natureza, claro não podia passar sem dar uma espiadela.
Muito agradável e esclarecedor.
Quantas das vezes, tenho-me deparado com tantas dificuldades em identificar as plantas que me rodeiam e, não consigo quem tão bem mas identifique.

Ultimamente, tenho visto a nossa floresta de Pinheiro Bravo, e não só , devastada pela praga do Nemátodo do Pinheiro. Parece-me que as nossas autoridades florestais pouco se têm preocupado com a devassidão, deixando a cargo dos incêndios, toda a carga térmica proveniente da morte dos mesmos. Se não reagirmos a tempo, dentro de poucos anos, devemos estar á mercê dos eucaliptais e, das acácias.
Pela parte que me toca, dedicarei todo o meu esforço possível a denunciar tal desprezo. Pugnemos em nossos espaços os alertas e denúncias para que se possa defender os nossos pinheiros, quer os bravos quer os mansos, visto estes já estarem também ameaçados da referida praga.
Passarei desde este momento a sser um vosso seguidor.