6.10.11

Língua áspera


Neatostema apulum (L.) I. M. Johnst.

Esta pequena herbácea anual (caules até 30 cm), que apresenta fortes semelhanças com a muito comum erva-das-sete-sangrias (Lithodora prostrata (Loisel.) Griseb.), sobretudo na forma das flores e na folhagem áspera como língua de gato, tem contudo uma personalidade tão vincada que perfaz sozinha um género botânico. O tardio reconhecimento da sua singularidade ocorreu em 1953; até lá, ela foi agrupada com os miosótis (por Lineu, em 1755, que lhe chamou Myosotis apula) ou incluída, como Lithospermum apulum, num género por onde também já andou a erva-das-sete-sangrias.

Para além das flores amarelas (que têm cerca de 6 mm de diâmetro), uma particularidade mais subtil a destaca não só das suas antigas companheiras como da generalidade das boragináceas. A Neatostema apulum, tal como certas orquídeas, é praticante assídua da cleistogamia: algumas flores não chegam a abrir e optam pela auto-polinização. Com as abelhas e outros polinizadores a escassearem de modo alarmante, que a planta se baste a si própria para se multiplicar é um passaporte para a sobreviência.

O epíteto apulum refere-se à Apúlia - não à praia nortenha, mas à província transalpina com o mesmo nome, situada no calcanhar da bota-península italiana. A distribuição da língua-de-flores-amarelas é contudo bem mais ampla: todo o sul da Europa, norte de África e sudoeste da Ásia. Em Portugal aparece sobretudo no centro e no sul, mas faz ainda uma incursão à bacia do Douro superior. Surge em prados ou bermas de caminhos, e afirma a Flora Ibérica que ela é indiferente ao teor ácido ou alcalino do solo. Até hoje, porém, só a encontrámos sobre calcários, nos Candeeiros e em Sicó.

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